Não El Ni¤o mas El Hombre - Walmor Maccarini
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 01 de outubro de 1997
Walmor Maccarini 
1 - A poderosa corrente da mente humana provoca a convulsão das forças da natureza. Tanto para as tempestades como para a bonança. Vivemos, no momento, os primeiros sinais de mais uma investida deste rebelde menino, El Ni¤o, mas não é ele o responsável e sim El Hombre. Assim com as guerras, as catástrofes, as epidemias, as pestes por longo tempo incuráveis que a humanidade conheceu.
2 - Se o homem estimula ideais de confronto e competição no exercício diário da vida a explosão dos conflitos de multidões será apenas uma consequência. Uma guerra nunca irrompe se não há um campo propício. Quando ela explode, já existia na mente irada e convulsionada das pessoas.
Dias atrás - deu na tevê - num jogo de basquete, no Rio, de repente torcidas inflamadas semeiam pavor e pânico. O técnico de um dos times manifesta-se, condenando sua própria torcida por tamanha violência. Mas esqueceu-se de que, na quadra, os jogadores - em quaisquer modalidades - sempre querem comer o fígado um do outro, porque o que chamam esporte é em verdade uma guerra, uma ferrenha disputa, porque vitórias representam a glória, o ego satisfeito, representam dinheiro. E se as metas são estas, não há lugar para a alegria e a ética.
Também dias atrás - deu na tevê - num campeonato dessas lutas esportivas do vale tudo (com direito a socos, chutes e asfixiamento) a assistência ensandecida entrou em batalha corporal, destruindo tudo. Simplesmente natural, porque no ringue travava-se luta igual. Eram, então, iguais identificando-se. Se a platéia admite, se há um regulamento oficial para práticas esportivas tão bárbaras, não há porque estranhar e condenar guerras de torcidas! Não dá para valorizar tanto o particular (o efeito) e ignorar o principal (a causa).
3 - Nestes dias recebemos no Brasil a visita do Papa. E segmentos de outras igrejas já começam a manifestar-se, emporcalhando o rosto do Pontífice nos cartazes públicos, e outros atos menos dignos. Tudo por conta do amor que é pregado nesses templos.
Houve uma época (e foi longa!) em que os inquisidores também tiveram seus dias de atrocidades.
As religiões, sempre capitaneadas a partir dos templos, já aprontaram das suas ao longo da história! Com uma mão empunhando a Bíblia e com outra a espada. Hoje a espada foi abolida, por ineficiente demais: foi substituida por armas mais sofisticadas. Inclusive a bomba atômica.
Pois não é verdade que a nação mais usuária da Bíblia no mundo é também a mais guerreira?
Com toda certeza a culpa não é do Livro, mas daqueles que não o entenderam.
A ira e a intolerância, sempre, como baluartes, neste mundo aprendiz mas tão mau discípulo!
4 - O homem é divino em sua essência mas insiste e contenta-se em considerar-se humano. Navegando por estas águas do obscurantismo prende-se à ignorância da condição carnal, não permitindo vislumbrar suas grandeza espiritual. E as igrejas não permitem que ele transcenda esse estado, porque, se tal acontecer, elas quedarão vazias e os pregadores se diluirão como gotas dágua ao sol.
5 - Ao invés de converter-se para esta ou aquela religião, melhor faria o homem se convertesse para o seu Deus interior.
E melhor que buscar espantar os demônios será conhecer as Verdades. Que assim os demônios irão embora sozinhos.
6 - Há muito mais pela frente do que aquilo que já se foi. Então, se perdemos algo, não temos que nos mortificar em murmurios e lamentações. Melhor que façamos das coisas que julgamos perdidas uma oferenda à vida. Porque a vida é dádiva que recebemos de graça. Uma mulher não pertence a um homem; um homem não pertence a uma mulher. Apenas nós nos pertencemos. E sobre nós temos imensa responsabilidade. Por isso precisamos cuidar de nossos pensamentos, de nossas palavras e de nossos atos.
7 - Vítima de doença hepática, morre aos 43 anos um amigo: Luiz Antonio Mayrink Goes. Jovem e rico empresário. Outrora impetuoso, como todos os jovens, mas sereno nos últimos anos. Há menos de um mês, dias antes de sua hospitalização, tive com ele uma rápida conversa de elevador, mas bastante para sensibilizar-me. Perguntei-lhe:
- Como vão as coisas?
E ele, amavelmente:
- Vão bem!
E fazendo um gesto, como referindo-se a nós dois, emendou:
- Vão muito bem para nós, mas melhor seria se as coisas estivessem bem para todas as pessoas; porque, se todas as pessoas estiverem bem nós também continuaremos bem.
Guardo dele este derradeiro e belo momento!


