Não: é patrimônio do povo
Lamentavelmente, o plebiscito do dia 19 de agosto, sobre a Sercomtel Celular, passou a ser a única meta da atual administração de Londrina, pois, para o prefeito Nedson Micheleti (PT), a panacéia privatista bem ao gosto dos neoliberais representa, pasmem os petistas de carteirinha, a solução para todos os males que pairam sobre a nossa cidade. O que vimos nestes seis primeiros meses foi simplesmente a contemplação dos administradores que, imobilizados pela inércia da tão propalada crise política que eclodiu em Londrina, apenas reclamam da situação econômica do País e tripudiam sobre a devastação deixada pela administração passada.
Tal qual síndicos de massa falida que vociferam sobre as dificuldades da falta de recursos, o prefeito vem tropeçando em pequenos obstáculos e chorando sobre o leite derramado. Ninguém disse que seria fácil e realmente não é. Porém, todos nós (e aqui, na condição de derrotado no segundo turno das eleições, deixando de lado qualquer revanchismo, incluo-me também) esperávamos muito mais dele. Precisamos depositar cada vez mais confiança no prefeito para que ele possa fazer uma grande administração e recolocar Londrina na posição de destaque que sempre ocupou e que nunca deveria ter saído.
A convicção que temos de não vender a Celular se fortalece a cada dia que se avança na discussão sobre o tema com a riqueza de argumentos do que seja melhor para Londrina e sua população. Principalmente agora que a Sercomtel acaba de completar 33 anos de excelentes serviços.
O que nos espanta ainda mais é que um governo eleito no campo popular demonstre tamanha fúria pela venda de um patrimônio público que é um verdadeiro orgulho para a cidade. E aqui não vai nenhum sentimentalismo xenófobo, mas, se empresas de capital público como são os casos da Telefonica (Espanha) e da TIM (Itália) encampam empresas de capital privado no mundo inteiro, por que as empresas do Brasil um país em desenvolvimento e com um mercado em expansão não saturado também não podem ousar se interessar por empresas de um setor estratégico essencial como é o caso da telefonia?
Por que a única solução é a venda? A cada privatização feita por este governo entreguista com uma fidelidade canina de quase um xiita às avessas que reza na cartilha do FMI como poucos sempre em nome da famigerada globalização além da perda da qualidade do serviço e do aumento da tarifa cobrada, perdemos mais do que o patrimônio que é levado pelas multinacionais que sugam as nossas riquezas e remetem lucros para suas sedes; perdemos algo irrecuperável num curto espaço de tempo, que é a auto-estima, cujo valor intrínseco e moral significa muito mais que qualquer quantia que porventura possa ser recebida pela venda de uma empresa.
Não seria difícil encontrar parceiros que não ameaçassem o controle acionário do município. Parceiros realmente interessados em investir recursos para atualizar o aporte tecnológico da Sercomtel que assim voltaria a ter condições de disputar fatias do mercado. Vale o exemplo: até há pouco tempo, o governo jamais pensou em abrir linhas de crédito para o setor energético. Mas, com a ameaça do apagão, o próprio BNDES financiará empreendimentos da área privada que objetivem evitar blecautes inesperados.
São apenas perspectivas que partem de uma consciência criativa e não veleidades que regorgitam de uma mente delirante que insiste no bordão repetido pelos aríetes palacianos que dilapidar o patrimônio público em nome da concorrência é apenas a alternativa mais cômoda ou até covarde. Talvez aí resida um pouco da contradição que Marx explicitou em O Capital, que é a bíblia de todo governo popular, mas, que em Londrina foi rasgada por aqueles que, acostumados a estilingue hoje se tornaram vidraça.
Se o receio da concorrência tivesse açambarcado o saudoso comandante Rolim Amaro, nos anos 50, na pequena Marília, a TAM, diante da concorrência e da abertura das empresas de aviação multinacionais, não seria hoje uma das maiores da América Latina. A mesma preocupação também foi interposta quando no início dos anos 60 os antagônicos ao projeto de Hosken de Novaes, que já sonhava na época com a automação telefônica para Londrina, conseguiu êxito na criação do então Sercomtel e era taxado de visionário.
O tempo mostrou que Hosken tinha razão e todos aqueles que acreditaram na empresa genuinamente londrinense (parafraseando o slogan de Rolim) e pagaram mensalmente as prestações, tiveram a recompensa, anos mais tarde, de sorver os benefícios da eficiência de uma das melhores empresas de telefonia do País (escolha feita na época pela Telebras).
O grande debate e, talvez, o maior desta administração, seja este que o cidadão decidirá no próximo mês. Até o momento, a população não encontrou uma razão definitiva que leve ao convencimento cabal de que vender a Celular represente reais benefícios para a cidade e sua população. E quem garante que a venda da Celular não seja apenas a primeira peça do efeito dominó que nos leve a abrir mão do nosso maior patrimônio que é a Sercomtel como um todo somente pela ameaça da concorrência? O londrinese já resistiu a muitas intempéries e obstáculos e sempre se manteve firme. Não será agora que o nosso povo fugirá do desafio.
- BARBOSA NETO é jornalista e presidente do PDT em Londrina





