Os tempos difíceis que vivemos hoje não têm nada de apocalítico. E se eventualmente os considerássemos assim, eles teriam paralelo com tantos outros que ao longo de mais de cem mil anos de história do Sapiens foram surgindo. São apenas momentos delicados e constrangedores, que obrigam o homem, em cada época, a desenvolver mecanismos de sobrevivência, com os recursos físicos, científicos e mentais adequados. O medo e o pavor que nos acometem, tal como a febre biológica, nos levam a tomarmos as atitudes necessárias para driblar o perigo, com o mínimo de vítimas possíveis.

Entendo, como padre, que a reclusão a que somos forçados e a que sabiamente nos submetemos é um belíssimo tempo de reflexão. Não apenas de investigação cientifica sobre a Covid 19 – que também é salutar para combater as inúmeras fakes – mas principalmente sobre a vida em si. Quem somos, de onde viemos, qual a nossa missão neste mundo. Estas são as perguntas que nos devem perseguir e que em tempos conturbados como estes, exigem de nós uma postura de humildade e de introspeção. O leitor sabe muito bem que a partir de um certo ponto na nossa história sobre a terra, a economia passou a comandar os passos dos terráqueos. Não usamos aqui nenhuma dimensão pejorativa, em princípio. Mas o que o papa Francisco vem denunciando desde a sua nomeação, e que outros papas já fizeram nos últimos cem anos, é de que um certo “economicismo” vem comandando o mundo e isso é gerador de destruição do planeta e exclusão de homens e mulheres, gerando um rastro de pobreza material e existencial e fazendo germinar um sem-número de conflitos que seriam evitáveis, com certeza. Por outro lado, mas concomitantemente, o mundo vem assistindo a um ressurgimento de nacionalismos que se esperavam eliminados no século passado. Paralelamente à especulação financeira, há uma certa reedição da guerra fria e a debilidade da própria democracia com desprezo por organismos internacionais. O coronavírus surgiu neste contexto.

Podemos até dizer que foi muita “infelicidade” ele ter vindo agora! Sabemos que os primeiros foram isolados em 1937 e que o Covid-19 foi identificado no final de dezembro de 2019. No entanto, a família desse vírus é antiga. Em algum momento se manifestaria. Porém, não considero que isso deva ocupar muito espaço na nossa reflexão. Individual e coletivamente, faz-se necessário sim, refletir sobre o mundo que sairá dos escombros de quarentenas forçadas, caixões enfileirados ou cemitérios saturados. Isso é sem dúvida, o que nos deve prender a atenção. O mundo não pode copiar outra situação paralela trágica, a da gripe espanhola, em que enterrou cerca de 50 milhões de mortos, 20% da população da época, e logo depois se precipitou numa Segunda Guerra. Se o sapiens tende a aprender também com os erros, este será o grande momento. Como nos lembra muito bem o papa citado, “levemos o cântico da vida onde estivermos. Façamos calar os gritos de morte! Basta de guerras. Pare a produção e o comércio de armas! É de pão que precisamos e não metralhadoras! Cessem os abortos e abram os corações daqueles que têm para encher as mãos vazias de quem não dispõe do necessário” (homilia do último Sábado Santo). Utopia? Mas é de sonhos que vivemos! A humanidade já demonstrou capacidade de sonhar enfrentando pesadelos. Individualmente, grandes personalidades surgiram em meio a guerras e catástrofes. A Covid-19 não é o apocalipse, mas pode provocar o raiar de uma nova humanidade. Quem viver, verá! E enquanto isso, fiquemos em casa e aproveitemos para exercitar o que mais nos carateriza como humanos: a filosofia!

Padre Manuel Joaquim R. dos Santos, arquidiocese de Londrina

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