Não: dá lucro, é sólida e é nossa
Os argumentos técnicos sobre a necessidade da venda da Sercomtel são em si dúbios. Refiro-me a argumentos familiares à própria empresa. No panorama global das telecomunicações, a Sercomtel é uma exceção, e bastante vulnerável, segundo os defensores da venda, uma vez que não dispõe das possibilidades de crédito que as grandes possuem.
Para começo de conversa, é melhor, na verdade, falar de expansionismo. As grandes que por aqui se instalaram, fizeram-no numa visão nitidamente expansionista, sem contemplar nada mais que não seja o retorno imediato de seus investimentos. Anular a concorrência ou formar cartel será o caminho lógico para quem visa esses objetivos. A política de privatizações do governo federal facilitou as coisas sobremaneira. Hoje corremos o risco de ter no Brasil duas ou três grandes magnatas das telecomunicações.
É possível (sobre)viver no atual contexto? É! A Sercomtel não precisa entrar na mesma jogada de suas congêneres. A Sercomtel é uma empresa pública que visa prestar serviços com competência e sem qualquer pretensão que não seja a de se solidificar e cumprir sua missão com destreza. Até o momento, apesar dos atentados contra ela cometidos, ela está de pé e dando lucro! A perda de uma fatia para a Global fez parte dos ajustes de mercado e de modo algum pode ser encarado como parâmetro para receios futuros.
A Sercomtel é saudável e tem o mais importante: a simpatia dos londrinenses que se constituem no seu maior patrimônio e que a elegem como preferencial. Soma-se a isso a estrutura já montada e investimentos realizados que a tornam a priori competitiva com a que agora vai se instalar. Aliás, a principal interessada (ou única) no negócio, com certeza preferiria um investimento de R$ 130 milhões ao que terá que realizar, de cerca de R$ 600 milhões.
Mas o tema Sercomtel no momento entra num âmbito bem diferente. Venda ou não venda no atual contexto é um dilema pesado e eivado de nuances que no mínimo prejudicam o cerne da questão. Politicamente falando, Nedson e PT não rimam com a venda da empresa. Se não existe essa afinidade e se o partido e os seus projetos poderão sair prejudicados, o que leva o prefeito a ser tão corajoso? Preocupação com a falência da empresa, dirão alguns. Acredito que sim. Pelo menos receio do desconhecido num mundo de concorrência selvagem.
Mas existem outras razões nada obscuras que precisam ser manifestadas. O que faz um prefeito no comando de uma prefeitura falida? Administra... dívidas! Evita déficits maiores... E lamenta erros de administrações anteriores. Esqueçamos Londrina e verifiquemos as cidades aqui mesmo no Norte do Paraná. Umas fecham as portas, outras entregam seu patrimônio para pagamento de dívidas e outras... continuam gastando mais do que arrecadam. Nenhuma delas tem uma Sercomtel.
Aqui nós temos. Aliás, é bom lembrar, sempre tivemos. E sempre ela esteve aí para tornar a Prefeitura de Londrina um eldorado comparada com as demais. E hoje não é diferente. Nedson precisa de dinheiro (quem não precisa?!). A Celular está numa encruzilhada, vítima de uma armadilha global. Enfrentar as ondas rebeldes ou atracar num porto seguro? Eis a questão. O alto-mar oferece além do risco a ausência de víveres. O porto tem a cor do dinheiro em caixa e o brilho da tranquilidade de quem se livra de um problema. E assim se discute a venda de uma empresa fadada à falência!
Os argumentos apresentados convencem os que mergulhados numa mentalidade neoliberal venderiam tudo que público fosse. É por isso que não estranhamos ver no mesmo barco gente que até ontem se digladiava por questões ideológicas. O medo de que a empresa celular não sobreviva não procede. Ela terá que encarar sim mais uma concorrente e os administradores terão que suar a camisa para fazê-la vencer; esse no entanto é o ônus do mandato popular.
O povo deseja que o administrador gerencie a coisa pública e não que dela se desfaça. O prefeito de Londrina tem a obrigação moral de usar a Sercomtel, como padrão exemplar frente ao descalabro demente que assola este País no que concerne a privatizações. Queremos uma cidade diferente e não apenas o prolongamento lógico das acrobacias que se cometem por esse País afora contra o patrimônio público. Não se trata de bairrismo ingênuo ou de emoção irresponsável. Defender uma empresa como a Sercomtel é por enquanto mantê-la sob o controle do município. Dá lucro, é sólida e é nossa. Galinha dos ovos de ouro não matamos.
- MANUEL JOAQUIM R. DOS SANTOS é pároco da paróquia Imaculada Conceição, em Londrina





