Tem aquela história da população que reclamava muito dos altos impostos, então o governo, para fazê-la esquecer desse fardo, aplicou-lhe um ônus ainda maior: entregou a cada família um bode, para que cuidasse dele. Com aquele bode convivendo em família foi um transtorno geral, a ponto de todos realmente esquecerem o pesado encargo dos impostos. Os protestos passaram a ser contra o bode. A grita era generalizada, e então, passado longo tempo daquela agonia, o governo resolveu retirar os bodes. Com isto, temporariamente acalmou a ira popular. Sem retirar o ônus anterior.
Agora o governador Jaime Lerner faz o mesmo, ao anunciar a baixa do pedágio. Pressionado, fez o que todos pediam: retirar o bode. Mas o mal anterior continua, que é a cobrança de ida e volta, diferente do Estado de São Paulo, que só cobra uma vez; a exorbitante tarifa, mesmo com a anunciada redução de 50%; e esse exótico contrato com as concessionárias, que entraram com o nome de empresas privadas mas passaram a cobrar antes de construir, portanto financiadas pelo povo. Isto não é privatização.
A receita do IPVA, no Paraná, foi de R$ 210 milhões em 1997. Com este dinheiro bem gerenciado, sem o vírus do superfaturamento, dá para se pensar em duplicação de rodovias, mesmo que em ritmo lento.
O governador que mais construiu estradas, Jaime Canet, fez 3.400 quilômetros de asfalto sem cobrar pedágio, e Álvaro Dias, segundo no ranking, fez 3.200.
Todos temem - e está aí nos jornais - que a medida do governador seja eleitoreira e que, devagar, as concessionárias irão aumentando de novo as tarifas. É assim que sempre acontece.
Os sindicatos das empresas transportadoras de cargas anunciam que vão continuar com os protestos e novas estratégias de ação e reivindicação. O que ocorre é que esse negócio foi mal elaborado, em suas origens. Tanto que numa penada já deu para reduzir 50%, sem mais questionamentos. Nunca se viu, na história dos meganegócios, de repente uma das partes dizer que só vai cumprir 50%. Já escrevi que o governo meteu-se em encrenca, porque assinou contratos, e depois que assinou, ou cumpre ou paga o ônus. Vai sobrar para o povo.
A ‘‘turma raivosa’’, como o governador denomina seus mais afeiçoados adversários íntimos, já diz que, uma vez no poder, vai derrubar o pedágio por inteiro. Primeiro, não se acredita. Segundo, há contratos a cumprir, e não será tão fácil. Terceiro, a privatização dos serviços, aí compreendidas as rodovias, é uma grande fórmula, porque o mundo caminha nesse rumo.
Melhor seria se, a um passe de mágica, pudéssemos amanhecer sem o pesadelo desses contratos assinados, da forma como estão, e começar tudo do zero.
O que surpreende é as concessionárias declararem que com redução da tarifa o cronograma de obras fica comprometido. Essa fantástica declaração fez-nos enxergar o que temíamos: as empresas vencedoras das concorrências não têm dinheiro. Sem o capital popular - antecipadamente arrecadado no pedágio - elas não têm sustentação para bancar obras, como a construção de uma estrada ou a duplicação das atuais.
É aí que vale citar o exemplo dos países inventores da privatização de rodovias. Primeiro as empresas construiram as estradas, para depois receber, em forma de pedágio. Aqui, elas começaram cobrando, sem se ter visto obra nenhuma.
Não se começa cobrando a cachaça sem antes instalar o boteco.
Este foi o ‘‘pecado original’’ de Jaime Lerner, que pelo jeito empolgou-se com a idéia mas nem leu o que estava assinando.
As empresas já acenam com retardamento de obras e possibilidade de queda na qualidade do serviço. E os usuários, conforme saiu no jornal, temem o pior: que os serviços passem a ser mal prestados e continuemos com o bode dentro de casa: os 50% do pedágio que teremos que continuar pagando.
Com o pedágio tão caro, mesmo com a anunciada redução, e a cobrança em mão dupla, as preocupações começam a rondar o Paraná: a Associação Comercial de Paranaguá foi alertada pelos terminais graneleiros que as cargas, a partir do próximo ano, poderão ser transportadas para outros estados. A Copersucar, que embarca por Paranaguá, anuncia que pode desviar a exportação para o Porto de Santos. A Ocepar mostra que o produto agrícola transportado pode subir 22% com o advento desse pedágio tão alto. (Alguém deveria informar ao governador que 84% da economia do Paraná é transportada por caminhão). Donos de postos de combustíveis dizem que houve queda de movimento, com o pedágio, e terão que demitir empregados. (A mão-de-obra nos postos de combustíveis, no Paraná, soma 13 mil pessoas).
Um caminhoneiro que opera no trecho Foz-Paranaguá - onde existem 9 praças de pedágio - informa que faz em média 10 viagens por mês, com seu veículo de 25 toneladas, gasta R$ 138 de combustível para ir e outro tanto para voltar, mas passou a pagar pedágio de R$ 165 para ida e R$ 165 para volta. Total de R$ 3.300 pelas 10 viagens. Este era seu lucro. Que zerou neste primeiro mês de pedágio.
O governador urbanista, que traz indústrias automobilísticas para gerar empregos, está cassando o emprego deste motorista, ao tempo em que ameaça a estabilidade econômica do Estado, gera intranquilidade e convulsão da paz social.
- WALMOR MACCARINI é jornalista em Londrina

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