Quando o homem aprender a respeitar até o menor ser da criação, seja animal ou vegetal ninguém precisará ensiná-lo a amar seus semelhantes. Albert Schweitezer, Nobel da Paz de 1952 cunhou essa frase lapidar. Alfred Kastler (1902 - 1984), prêmio Nobel de Física acreditava que ‘‘uma sociedade não é verdadeiramente civilizada se não respeita e protege o animal’’, provavelmente inspirado no sábio Humboldt que disse: ‘‘Pode-se avaliar o grau de civilização de um povo pela maneira que esse povo trata seus animais’’. -
No Egito antigo o gato era considerado animal sagrado e recebia homenagens após a morte, porém, já no século XIII, nos sermões de São Domingos, o diabo era representado pela figura do animal e durante a inquisição era queimado junto com as mulheres que, por saberem manipular ervas curativas, eram consideradas ‘‘bruxas’’ pela Igreja Católica. Naturalistas como George Buffon e escritores como Jean de La Fontaine, ambos franceses, contribuíram para a formação desse preconceito taxando o bichano de falso e infiel. -
Atualmente, pesquisas científicas comprovam que os bichos exercem boas influências na saúde de seus donos. Estatísticas informam que é menos provável que uma pessoa sofra do coração se estiver acompanhada de gatos e cachorros, o que também diminui a pressão sanguínea e a taxa de colesterol. Está sendo investigado ainda até que ponto a companhia de animais pode substituir o uso de medicamentos.
Os bichos desentristecem o mundo, já dizia a poetisa Maria Julieta Drummond de Andrade, e lembra dos gatinhos que povoaram sua vida como as de muitos de nós que, conscientes da sensibilidade das espécies, os adotam e amam seguindo os ensinamentos de São Francisco; em contraponto com alguns representantes da espécie humana que não entendendo que somos, cada um de nós, um ser vivo rodeado de seres vivos, não entendem que toda vida é um milagre que se deve respeitar.
Observamos – horrorizados – o surto de toxoplasmose em Santa Izabel do Ivaí e a caça da gata imediatamente identificada como responsável. Sem dúvida um caso grave, mas isolado e que provavelmente não teria ocorrido se medidas de segurança tivessem sido observadas no reservatório de água da cidade. É fácil colocar a culpa num ser inofensivo e irracional, que procura abrigar seus filhotes perto de uma fonte limpa já que ninguém se preocupou em instalar uma porta.
Um veterinário especialista, em entrevista no jornal declarou textualmente que mantendo-se medidas de higiene se afasta o risco, mas não foi suficiente para conter o terrorismo de algumas pessoas – poucas felizmente, que moram ou pretendem morar nas proximidades de uma chácara que abriga um número considerável de gatos abandonados na qual muitos deles depositaram ninhadas indesejadas de seus felinos domésticos, engendrando por envenenamento o crime de biocídio – delito contra a vida – previsto na Declaração Universal dos Direitos dos Animais de 1978; e praticando ameaças à proprietária do terreno, crime este previsto no Código Penal.
Exigem providências urgentes do poder público, denunciando que os gatos assaltam as geladeiras das casas vizinhas. Caso tal fantasia fosse possível, seria o caso de parabenizar a alma caridosa que acolheu os bichanos pela dedicação e capacidade de adestramento dos animais (quantos de nós já tiveram a oportunidade de observar um gato abrir portas e gavetas?) e sugerir que compensasse o investimento necessário à manutenção como compra de ração e pagamento de funcionários com o agenciamento dos bichanos artistas.
É fato comprovado pela Vigilância Sanitária que os animais são mantidos com grande espaço no interior da propriedade cercada de muros altos e lisos que os impede de sair, que as vacinas e medicamentos necessários são administrados, que há controle da natalidade pela castração dos machos, o que impede a alegada algazarra noturna, e que tudo isso, embora seja responsabilidade do poder público, é mantido única e exclusivamente com recursos da voluntária.
Acerca do voluntariado, importante informar que algumas pessoas vêm à custa de muito esforço, com recursos próprios e sem nenhuma remuneração ou apoio estatal, assumindo a responsabilidade do município de abrigar, alimentar, tratar e representar em juízo as vítimas irracionais daqueles que, crendo-se superiores porque racionais, maltratam, brutalizam, torturam ou, no mínimo, ignoram as outras espécies também divinas da Criação.
Pensemos bem na péssima lição que estaremos dando às crianças ao querermos nos livrar dos animais na primeira dificuldade a ser resolvida. Elas rapidamente associarão que é mais fácil ‘‘se livrar’’ do problema do que ‘‘resolvê-lo’’. Ficaremos velhos um dia e aí seremos descartados do mesmo jeito que fizemos com outros seres durante a vida inteira.
CLÁUDIA PROCHET, advogada em Londrina

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