Passadas as eleições, resta a dúvida: para onde vai o Real? Temos salvação ou agora chegou a hora de pagar pelos quatro anos de estabilidade com sangue dos empregos, dos salários, das falências? Nada disso. O real não morreu. O governo pode contornar a situação e manter a economia estável, sem necessidade de destruir o que foi construído à custa de muito sacrifício por todos os brasileiros, sem exceção.
O primeiro ponto é evitar, a todo custo, uma desvalorização cambial grande - algo em torno de 25 a 30%, como pede o lobby das multinacionais. É um perigo concreto: há poucas semanas, os bancos de investimento de primeira linha, em particular alguns dos mais famosos, com sede nos Estados Unidos, começaram uma pressão direta sobre o governo brasileiro para que uma desvalorização cambial seja incluída no programa macroeconômico que está sendo tratado com o FMI.
Na verdade, esses bancos querem jogar para o Brasil a conta das perdas com a quebra da Rússia e a queda das Bolsas no mundo inteiro. Com o dólar valendo mais dentro do Brasil, esses investidores conseguiram muito mais lucro em pouco tempo, equilibrando seus rendimentos.
Para o Brasil, isso seria um desastre, levando à volta da inflação em pouco tempo. O certo é continuar a desvalorizar o real aos poucos, gradualmente, como tem ocorrido nos últimos doze meses. Em seguidos seminários, o presidente do Banco Central, Gustavo Franco, tem reafirmado que o governo pretende manter a política cambial, o que já é um alívio.
Nossa sorte é que, com as privatizações, ganhamos uma série de aliados, através das empresas estrangeiras que agora participam do mercado interno, nas mais diversas áreas. Esses parceiros nos defendem e ao mesmo tempo ajudam a conseguir um auxílio que em outros tempos seria difícil, como por exemplo o crédito de US$ 30 bilhões que o FMI está viabilizando para amparar as contas brasileiras. Afinal, ninguém quer matar a ‘‘galinha dos ovos de ouro’’.
Os Estados Unidos baixaram em 0,25 ponto percentual suas taxas de juros internas e indicam que gostariam que o mesmo acontecesse nos outros países industrializados. O Brasil, ao contrário, elevou as taxas. Isso foi preciso para estancar a sangria dos dólares, que fugiam para outros mercados, mas não pode continuar por muito tempo, sob pena de estrangular a economia interna. Para aguentar a crise, medidas importantes são necessárias. As reformas tributária e previdenciária são urgentes e na certa serão aprovadas logo que os deputados e senadores saiam da euforia das eleições.
Os comunicados oficiais que circulam em Washington, no encontro do G-7 (Grupo dos Sete, que reúne os países mais ricos do mundo) e FMI exigem ‘‘medidas fortes’’ para resolver a crise global. Mas os desentendimentos entre os responsáveis pela comunidade financeira internacional são tamanhos que é improvável que qualquer medida venha a ser tomada no curto prazo.
Para as empresas, a hora é de cautela. Nada de dar um passo maior que a perna. Mais importante é sair do endividamento, cortar as gorduras e se restringir ao básico para a sobrevivência. E, é claro, esperar por tempos melhores, que com certeza virão.
- GILBERTO DE CAMARGO é economista e especialista em negociação de dívidas em Curitiba

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