A polarização política e ideológica vista nas universidades nos últimos tempos aponta para importantes debates emergentes no campo da educação brasileira. Motivo desses acirramentos estiveram nos abalos dos pactos de classe e nas expectativas eleitorais, mediadas pela escalada do conservadorismo e da crise do pensamento progressiva em escala global. As lacunas de conhecimento histórico, de ruptura nos pactos de solidariedade e sucesso do individualismo egoísta, misturados com a crise depressiva da subjetividade e com os ataques ao trabalho e ao emprego, completam os aspectos ideológicos em disputa.

Ao se observar as configurações dos movimentos sociais contemporâneos, aparece o caráter regressivo de suas reivindicações: não são mobilizações pela ampliação de direitos sociais como na segunda metade do Século XX, mas sim, movimentos que buscam a garantia de um mínimo básico de direitos que estão sendo retirados na era da austeridade pós-globalização.

Atualmente, em várias universidades, assim como na UEL, prova-se que mesmo regressivas, tais reivindicações políticas são objeto de disputa. O movimento estudantil, que se posiciona em greve há mais de um mês, mostra que há muito a resistir, já que as conquistas das classes trabalhadoras e subalternas estão se esvaindo ao longo dos anos. Ainda que as categorias em greve procurem ter autonomia de suas pautas para as negociações, torna-se evidente que a educação pública, assim como garantida na Constituição de 1988, porventura, corre sérios riscos.

Em oposição a esse movimento, a articulação do discurso libertário-conservador agrega seu valor sobre os resquícios da negação e da aversão do político. Deseja-se uma valorização da moral jurídico-normativa em detrimento da ética da polis, decidida por seus participantes reais. Na UEL, o surgimento de um grupo chamado "Filhos da UEL", cujo objetivo é organizar as forças para a desocupação da Reitoria da UEL, representa tal sintoma. Amparado pelo argumento de que o Diretório Central dos Estudantes (DCE) não realizou uma consulta ampla e democrática aos estudantes para a deliberação da greve como previsto pelo Estatuto, tal grupo pretende, assim como o grupo "Desocupa UEL", derrotar os estudantes grevistas e, por consequência, a educação pública. E por quê? Já que a participação de estudantes contrários às mobilizações acaba sendo rara nos próprios espaços deliberativos dos estudantes, a alternativa seria deslegitimar o DCE e toda a carga de lutas históricas e conquistas desse órgão, para dar voz à despolitização da política embebida de conservadorismo e de totalitarismo. Tendências atuais da política, que vão de Doria a Trump.

Mas o que mais chama a atenção nisso é o desejo pela lei. Quando o psicanalista francês Jacques Lacan (1901-1981) cunhou o conceito "Nome-do-pai", buscava uma metáfora presente na identificação da função de filiação, que designa tanto o desejo pela lei como a última palavra de controle dada à criança. Vistos como filhos, portanto, surge a forma de legitimar o desejo por uma paternidade impossível no espaço público. Diz-se nas entrelinhas: "A UEL, abandonou seus filhos verdadeiros, sendo tomada por aqueles que não representariam os interesses principais da universidade: as aulas e a paz no interior da instituição". Com isso, o debate sobre a condição estudantil e a precarização das universidades é substituída, simbolicamente, pelos interesses individuais de continuidade das aulas, independentemente de haver condições reais e duradouras para isso. Nessa lógica, assume-se a universidade como mera prestadora de serviços, pois supõe-se que o mercado espera ansiosamente os futuros formados. No limbo de pretensões, a qualidade dos cursos superiores, a exclusão social e educacional, os altos níveis de desemprego e o crescimento da precariedade de trabalho, em especial, dos profissionais da educação, vira um mero detalhe de "esquerdopatas".

Com o "Nome-do-pai", encontra-se uma universidade recusada por aqueles que reivindicam legitimidade na paternidade: afirmam o contrário do que desejam, pois sem as lutas estudantis, toda a comunidade universitária sairá prejudicada, inclusive aqueles que acreditam na democracia e na liberdade estabelecida pelo mercado ou que pretendem uma rápida transição do conhecimento ao mundo produtivo.

PABLO ALMADA é doutor em Sociologia pela Universidade de Coimbra e professor do departamento de Ciências Sociais da Universidade Estadual de Londrina

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