Tal, do latim ‘‘talis’’ = igual. Repete-se, nesta época, a milenar cena do nascimento redentor, retratada por mãos criativas de artistas populares a moldarem, na expressão dos presépios, a alma do povo. Ruas, fachadas e casas se enfeitam, a Igreja festeja, as pessoas, alegres, trocam presentes e comemoram. Do mais humilde ao mais poderoso, celebra-se em cada lar, não obstante as peculiares diferenças, o mesmo e especial significado que irmama, na convergência de atitudes e sentimentos, línguas e raças, tornando o homem mais solidário e fraterno, instalando-se, embora por curto instante, o reino da paz e da felicidade.
Ao apagar das cintilantes a encantadoras luzes, porém, volta-se o homem, menos entorpecido, à reflexão de seu destino que compõe o enredo contemporâneo de sua dramática trajetória na face da terra. Não é possível que, após dois mil anos de um constante caminhar, ainda nasçam crianças nos estábulos sem teto, nos porões sem luz, nos bancos das praças, nas prisões imundas, nos jardins sem flores pela absoluta falta de condições materiais e de perspectivas de vida digna.
Não se pode continuar admitindo as mais diversas formas de exclusão social a privilegiarem poucos em detrimento de muitos, no mais das vezes discriminando odiosamente, desde o raiar de sua existência, aquele que, inocente, vem ao mundo. Basta abrir-se a janela da realidade para constatar-se que não apenas agravaram-se questões antigas, como novos e angustiantes problemas estão sendo incorporados ao conjunto de preocupações contemporâneas.
A criança, seja no continente africano ou americano, em qualquer parte do mundo, é sujeito de direitos fundamentais, universalmente consagrados e aceitos, que se colocam acima de meras declarações retóricas, condição econômica, raça, sexo, cor, enfim, é expressão mais legítima de cidadania.
A liberdade de nascer deve abranger a de optar pela vida sem interrupções e violências, sem fugas, sem perseguições, sem a sina de perambular no alheio para se recostar numa manjedoura qualquer.
Que o poder dos novos reis a presentear o recém-nascido não seja somente etéreo, mas terreno, presente em sua vida de modo a lhe oferecer reais oportunidades de ascensão social, a lhe assegurar um futuro digno, a lhe garantir espaço próprio que o livre das abismais desigualdades regentes do obstinado processo globalizante. Que ele possa pertencer à sua família, habitar a sua terra, comer o fruto de seu trabalho, proclamar as suas crenças, louvar o seu Deus, enfim sonhar um mundo melhor e mais justo.
Não é possível que ainda como naquele tempo prevaleça a política do jugo e da exploração que estigmatiza e aprisiona o homem desde o seu nascimento, antoalhando o seu caminho e transformando o sol de sua primavera de vida em trevas, envolvendo em seus anéis constrigentes a sua juventude e dirigindo a nau de seu peregrinar rumo ao sofrimento e à cruz.
Seria um erro pensar que a inteligência humana não evolui, que se pode indefinidamente anular a reação das massas sempre ultrajadas em seus mais elementares direitos. A colisão é inevitável. ‘‘O erro não pode viver muito tempo com a verdade’’.
O Justo, que o poder dos homens prostrou, revive no remanso da paz divina aviventada neste tempo. O Perseguido, que Herodes não encontrou, apesar de estigmatizado, guarda sempre a hora da reparação e o momento final da vitória.
Que este santo Natal seja uma ocasião de reafirmar os verdadeiros valores do homem e que são tão intransigentemente defendidos pelo Ministério Público, procurando seguir a trilha do próprio Ministério de Jesus na Terra.
Neste sentido, penso que a missão do Ministério Público, orientada à abertura do sistema de justiça e ao alargamento de seu acesso popular, avulta de importância e deve ser cumprida como sacerdócio exercido por agentes cada vez mais conscientes de que não se pode transformar a sociedade sem antes reformar-se o homem, adquirindo-se o sentido pleno de vida interior. Assim como disse Gandhi: ‘‘O espírito da democracia não é uma coisa mecânica, a ser ajustada pela abolição de formas. Exige uma mudança de coração’’.
Que ressurja, pois, o respeito à natureza humana, aos brados da justiça, aos clamores da dignidade para que se possa atravessar de vez eclipses de dias guardados na distante galeria de lembrança e que vão sendo esquecidos pela chama dos mais belos e elevados ideais de vida.
E que se resgate à criança de hoje sua majestade moral, penhor inviolável de um verdadeiro tempo de Natal, assentado nos faustos da nossa civilização de que se espera.
- GILERTO GIACOIA é procurador geral de Justiça em Curitiba

mockup