Na prática o discurso do PT é outro
Estou plagiando o título do artigo do ilustre deputado, ex-ministro e atual não sei o que do governador Jaime Lerner, Rafael Greca, que em artigo publicado anteontem na Folha compara a venda da Copel à da Sercomtel, terminando por dizer que o PT quando se vê governo não hesita em trocar a névoa negra do jogo de palavras ideológico pelo mais lúcido pragmatismo.
Tentar comparar a venda dessas duas empresas, aproveitando-se para alfinetar posições partidárias somente poderia ser idéia advinda da mente responsável pelo sucesso da Caravela de Cabral nos festejos dos 500 anos do descobrimento, ou de um seguidor e escudeiro implacável do governador Campeão de Vaias de nosso Estado, pois a forma como a argumentação está colocada justificaria não só a venda das duas empresas estatais, mas de toda e qualquer companhia de nosso parque industrial.
Não é necessário ficar discorrendo sobre o que diferencia as duas empresas, pois qualquer pessoa com um mínimo de lucidez consegue facilmente enxergar que a velocidade dos avanços tecnológicos no ramo de geração e distribuição de energia ocorre de forma substancialmente diferente aos observados nas telecomunicações. Existem em funcionamento no Brasil usinas construídas no início do século passado e que ainda prestam-se muito bem a seus propósitos, enquanto não se pode afirmar o mesmo no setor de telecomunicações que persiste em constante e perigosa mutação. Basta dizer que em 1875 a morte do presidente Abraam Lincoln levou treze longos dias para ser conhecida na Europa e na história recente, a crise das bolsas asiáticas de 1997 estava divulgada ao mundo todo somente treze segundos após o fato.
Outra diferença substancial entre as duas privatizações reside no fato de que o PFL pretende se desfazer da empresa como um todo enquanto aqui em Londrina a prefeitura pretende vender de um dos negócios de telecomunicações, que se transformou em empresa por força de lei que a obrigou a manter estruturas independentes para telefonia fixa e celular, caso contrário seria a segunda nada mais do que mais um de seus inúmeros ramos de atuação.
A necessidade do PT ter que conversar o assunto com a população, obrigado a adotar um discurso que na prática é realmente diferente de suas ideologias, dá-se em função da total incapacidade de investimento por parte de nossa prefeitura, fruto da herança maldita deixada por um prefeito cassado e que, é bom não nos esquecermos, foi colega de partido do ilustre deputado articulista e do governador do Estado, mas com certeza defensor, na prática, de outras idéias que não as dos citados.
Afirmar que o resultado da privatização da Copel retornará ao povo paranaense via educação, saúde e segurança é discurso por demais antigo e que já foi amplamente utilizado pelo governo federal para justificar o esforço privatizacionista em seu início e não deve mais prosperar visto que o patrimônio nacional foi torrado na manutenção da política cambial que acabou por levar o País à banca rota uma vez que o processo de estabilidade econômica dos últimos anos nos custou o crescimento da dívida interna de 61 bilhões para mais de 530 atualmente. Somente nessa semana tal endividamento cresceu em 17 bilhões via aumento da taxa SELIC, enquanto o juro
norte-americano despenca a cada dia.
Quanto ao casamento da prática com discurso do Partido dos Trabalhadores, as urnas das últimas eleições se encarregaram de mostrar o alto grau de satisfação do interior do Estado do Paraná com a prática e o discurso dos partidos direitistas e, se Deus quiser, as eleições de 2002 tratarão de solidificar que o discurso errado não é do PT.
- RICARDO PROCHET é professor universitário e consultor de empresas em Londrina
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