NA MIRA DO CRIME Escalada da violência
PUBLICAÇÃO
domingo, 18 de novembro de 2012
Érika Gonçalves <br> Reportagem Local 
Homicídios, policiais mortos, viaturas e ônibus incendiados, guerra entre traficantes. Os exemplos de violência são constantes e vêm assustando a população. Em São Paulo, quase cem policiais militares foram mortos nos últimos meses por integrantes de uma facção criminosa. Em Santa Catarina, ônibus foram incendiados e tiros foram disparados contra uma base da PM e um presídio recentemente.
No entanto, não é preciso ir longe para presenciar cenas de caos. Neste ano já foram registrados 100 homícidios em Londrina. Outras 25 pessoas foram mortas em confronto com a polícia na área de abrangência do 5º Batalhão e da 4 Companhia Independente da PM. Em 2011 foram 10 mortos na mesma região. Isso significa um aumento de 140% em relação ao ano anterior.
Os dados estatísticos da violência, que não param de crescer, escondem centenas, milhares de histórias de dor e sofrimento de vítimas, familiares e amigos. E à medida que aumenta a comoção, cresce também a pressão popular por medidas que reduzam os níveis alarmantes da criminalidade em todo o País.
Para Guilherme Assis de Almeida, pesquisador no Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo (USP), a situação só pode ser resolvida se enfrentada em suas várias frentes e não apenas com reforço do efetivo policial.
''Minha perspectiva é clara. Prevenir a violência é ter políticas sociais sérias, efetivas, planejadas, supervisionadas e que pensem em uma questão central que é a formação da pessoa'', determina.
Existe alguma explicação para o grau de violência que estamos enfrentando?
Acho que as causas são múltiplas, não há uma causa só e acho que uma questão para tentar responder esse problema de causas múltiplas é que a segurança tem que ter outros agentes envolvidos, que não somente as forças policiais. É um problema multidimensional. Tem uma tradição do Estado brasileiro de políticas sociais meramente compensatórias, que não pensam em outra perspectiva, como por exemplo, a formação da pessoa e o desenvolvimento humano.
Quando se fala em outras forças que não a polícia, quais são elas?
Tem a estruturação do sistema de Justiça, que não tem sido capaz de encaminhar a resolução dos casos como um todo. Você tem a questão educacional, que em alguns lugares tem sido muito boa, muito eficaz, mas em outros nem tanto. Tem o caso da cidade, a regularização fundiária, que acaba surgindo quando acontecem as catástrofes naturais.
O povo brasileiro é violento ou podemos acreditar no ditado de que somos um povo cordial?
Essa frase de Sérgio Buarque de Holanda, que o brasileiro é um povo cordial, tem vida no contexto do livro dele (''Raízes do Brasil''). Como diz o professor José de Souza Martins, que estuda a questão dos linchamentos, o Brasil tem um povo violento também. Temos que pensar nessa questão da violência não como uma questão da natureza humana do brasileiro, mas de políticas capazes de prevenir o surgimento delas, e não só meramente políticas punitivas. A minha perspectiva é clara. Prevenir a violência é ter políticas sociais sérias, efetivas, planejadas, supervisionadas e que pensem em uma questão central que é a formação da pessoa.
O tráfico de drogas é a principal causa da maioria dos crimes, como a polícia afirma?
É uma das dimensões, que a gente não pode negar a existência. Vimos uma brasileira leiloando a virgindade pela internet. Outra vendeu a testa para propaganda de uma casa de apostas. Temos aí a ideologia do mercado dominando a sociedade como um todo. Isso mexe com as pessoas e também acaba por tocar no aspecto da violência de alguma forma. Não dá para dizer que é uma causa, porque não acreditar na existência de outra é fazer o trabalho incompleto.
Mas pode-se dizer que é a principal?
Isso vai depender do local, da cidade. A violência também tem esse fator. Ela muda de localidade para localidade. Não dá para pensar em uma explicação causal e pronto. Facilitaria a vida de todos nós, talvez até diminuiria a nossa angústia, mas não sei se seria muito verdadeiro. Aí a imprensa tem o papel importante de levantar o debate. É pensar, em cada localidade, o que a imprensa pode fazer, o que o Judiciário pode fazer. Tem que pensar também o que o cartório pode fazer, qual é o índice de sub-registro da localidade, de pessoas que não têm uma certidão de nascimento e por isso não conseguem estudar, trabalhar. Quais são as possibilidade de você orientar as pessoas para conseguir um emprego, montar uma empresa?
Combater a violência vai muito além de simplesmente aumentar o número de policiais ou armá-los melhor?
Evidentemente. Combater a violência, na verdade, é criar um ambiente propício, em primeiro lugar, para a formação da pessoa. Daquela que é capaz de decidir para o seu próprio benefício, para o encaminhamento do seu desenvolvimento pessoal.
Há alguma perspectiva de solução para a explosão da violência, uma vez que hoje os próprios policiais tornaram-se alvos?
Isso é algo que temos nos questionado cotidianamente aqui em São Paulo. Acho que o que estamos vivendo é o ápice de um processo que começou sabe-se lá exatamente quando. Entender e dar um diagnóstico preciso do que está acontecendo é algo que vai demandar um tempo de reflexão, de pesquisa e de diálogo, o que está sendo feito por grande parte da academia aqui em São Paulo.
O sistema prisional, da maneira como ele funciona, pode ter favorecido essa organização do crime?
Aí surge a questão: construir mais presídios ou diminuir o número de presos? É uma questão do sistema prisional, é também uma questão do sistema de justiça e seria também uma questão da academia e da universidade pensar novas estratégias, não apenas e tão somente em estratégias antigas e repressivas, mas estratégias da dita ressocialização. A gente tem experiências de penas alternativas, mas até que ponto essa experiência de penas alternativas não foi transformada em uma mera entrega de cesta básica?
O que o cidadão comum pode fazer para se proteger dessa onda de violência?
A melhor coisa que ele tem a fazer é se informar antes de sair de casa. Como está a cidade, o que está acontecendo, tomar os cuidados em relação ao transporte, onde ele está indo, se é um lugar que conhece. É um cuidado básico que todos devem tomar, mas às vezes as pessoas acabam se esquecendo.
Em um momento de crise como esse que estamos vivendo não podemos esquecer as experiências positivas que pequenos grupos têm feito Brasil afora. Pessoas que estão trabalhando na prevenção da violência, na formação da pessoa, iniciando processos de desenvolvimento humano, porque isso é muito importante e essas práticas têm que adquirir um protagonismo em nosso país que até agora não adquiriram.


