Pais de crianças até cinco anos sabem que periodicamente têm o compromisso de comparecer aos postos de saúde para vacinar os pimpolhos. Principalmente nos dois primeiros anos, as doses precisam ser aplicadas mesmo fora das campanhas nacionais. As clínicas de imunização também oferecem proteção contra doenças graves, mas não tão comuns. Os pediatras recomendam, mas não exigem. O alto custo é um dificultador, já que há vacinas cuja dose custa R$ 400 e geralmente é necessário reforço.
O que fazer nesses casos? E as vacinas da rede pública, são confiáveis? Os pais, principalmente aqueles de primeira viagem, ficam atormentados com essas questões. Para esclarecê-las a FOLHA conversou com Gerson Zanetto de Lima, pediatra e coordenador do Centro de Referência de Imunobiológicos Especiais (Crie) de Londrina.
Qual o critério do governo para incluir uma vacina no calendário oficial?
São vários. O primeiro é que a vacina seja de grande eficácia. Segundo, que ela seja segura, com poucos efeitos adversos. Terceiro, que o laboratório tenha condições de produzir o que o Brasil necessita e de garantir que isso seja contínuo. Quarto, há uma questão de custo dos medicamentos. Alguns são muito caros e realmente poucos países os adotaram de rotina. E quinto, também a questão da oportunidade de repassagem de tecnologia no Brasil, no âmbito de que ele possa produzir a baixo custo.
As vacinas são 100% eficientes?
Nenhuma vacina é 100% eficiente. As melhores chegam a uma eficácia de 95%, 97%. É preciso fazer a diferença entre eficácia, que é o resultado obtido na pesquisa, e eficiência, que é a vacina em condições de uso.
Pode acontecer de o organismo não produzir anticorpos?
Pode. Mas eu não vou usar publicamente uma vacina que tenha eficácia menor do que 90%.
Dizem que se a pessoa se vacinou contra uma doença, pode até pegá-la, só que mais ''fraca''. Isso é verdade?
Para algumas vacinas sim. A vacina contra varicela ou catapora, apesar de não oferecer 100% de proteção contra a varicela, protege contra as formas graves. Com uma dose única, ela conferia proteção próximo de 100% das formas graves e uns 70% contra todas as formas. Com o passar do tempo se percebeu que apenas uma dose era insuficiente, porque estava voltando a aparecer formas mais intensas em crianças que tinham sido vacinadas.
O senhor acha que o calendário oficial é eficente ou falta alguma vacina nele?
O calendário vacinal brasileiro é considerado um dos melhores do mundo. O Brasil é um dos países que melhor fez o serviço de erradicar doenças preveníveis por vacinação. Há algumas vacinas que nós, como pediatras, gostaríamos de ver inclusas no calendário e há intenção dessa inclusão. No PAC da saúde havia intenção de incluir as vacinas pneumocócica e meningocócica, mas a crise internacional fez com que o laboratório que estava envolvido nesta negociação não pudesse cumprir com o calendário originalmente proposto.
Vale a pena dar as vacinas das clínicas particulares?
Vale, se a pessoa pode. As vacinas que hoje não estão no calendário são a pneumocócia, a meningocócica do tipo C conjugada, a vacina contra varicela, contra Hepatite A, da gripe e contra o HPV. Todas têm estudo de eficácia mostrando o benefício. Se a família puder fazer isso para a criança, certamente é um bom acréscimo à proteção, mas realmente é caro. Precisa esclarecer essa família que não é caso de desespero.
Algumas mães preferem vacinar os filhos em clínicas particulares porque dizem que os efeitos colaterais são menores do que as aplicadas na rede pública. É verdade, a vacina é diferente?
Só existe uma vacina que pode ser comprada na empresa privada que é menos reativa do que a vacina dada no setor público, que é a contra difteria, tétano e coqueluche. Uma é chamada DTP acelular, que foi desenvolvida no Japão, na década de 1970 e que é menos reativa que a DTP clássica, dá menos febre e menos dor local. A oferecida pelo governo - a clássica - é excelente, não está associada a riscos de gravidade tipo morte ou paralisia. É que a acelular ainda não pode ser fabricada no Brasil e a diferença de custo está na ordem de cem vezes.
Existe uma indústria da vacina? Algumas são bem caras.
Na verdade, as vacinas, em termos dos laboratórios privados, não dão um retorno muito grande. Houve um investimento muito grande na década de 1980 e 1990 na produção de novas tecnologias e agora esses produtos começam a chegar ao mercado.

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