NA DEFENSIVA - 83% dos londrinenses sentem-se inseguros
PUBLICAÇÃO
sábado, 21 de fevereiro de 2009
Thiago Nassif<br>Reportagem Local 
Você já foi assaltado? Vítima de sequestro-relâmpago? Ou conhece alguém que engrosse as estatísticas? Quando a segurança física e a proteção estão em pauta, 83,2% dos londrinenses mostraram-se insatisfeitos em recente pesquisa conduzida pela UniFil. O dado, ao qual a FOLHA teve acesso em primeira mão, faz parte de levantamento sobre Qualidade de Vida em Londrina que a instituição lança em setembro.
A pesquisa foi realizada desenvolvida em todas as regiões da cidade e ouviu 2.410 pessoas, entre 16 e 75 anos. Foram utilizados parâmetros estabelecidos pela Organização Mundial de Saúde (OMS).
O número confirma: os londrinenses estão na defensiva. A situação é nacional. E urge intervenções. É no que aposta, defende e argumenta a psicóloga Denise Tinoco. Nesta entrevista à FOLHA, Denise acentua a mudança de hábito da população, contextualiza o medo nos dias atuais e sugere rigor aos jovens infratores.
Como o medo está refletindo no dia a dia dos londrinenses?
Percebemos claramente uma mudança de hábitos. O medo é uma emoção humana normal, importante para nossa sobrevivência. Podemos ter medo de altura, de barulhos altos, de bichos peçonhentos, medos naturais. O medo de sair às ruas, por exemplo, é adquirido com a experiência de se colocar no lugar do outro ao acompanhar o noticiário policial, gerando a defesa. Com isso, os muros estão aumentando, as pessoas estão com mais medo de sair à noite, entre outras manifestações. O fenômeno não é recente, mas percebemos que tem aumentado: os londrinenses estão na defensiva.
Quando esse temor se transforma em patologia?
Vale acentuar que medo todos nós temos, já a fobia é um medo excessivo, exacerbado, geralmente de fundo fantasioso, isto é, não aconteceu nada na experiência da pessoa que a levasse a ter aquele medo. O medo exacerbado se dá, também, após uma situação traumática. Cito exemplo: meses após sofrer um assalto, a vítima vai transpirar, ter taquicardia e liberar adrenalina à primeira aproximação de um estranho. Essa reação pode tanto passar quanto se potencializar, juntando-se a outras fantasias que a pessoa tenha a respeito, desencadeando no Transtorno do Pânico.
Com esse ''encastelamento'' gerado pelo medo, as relações interpessoais ficam cada vez mais deterioradas?
A grande questão é o primeiro contato. Quando alguém é apresentado às pessoas, naturalmente elas diminuem as defesas. À medida que a estrutura familiar mudou - e isso começou a acontecer a partir da 2 Guerra Mundial -, quando faltavam homens no mercado de trabalho e as mulheres foram muito estimuladas a encarar o batente, os filhos ficaram muito em creches e instituições para crianças. Resultado: a relação vincular entre mãe e filho deixou muitas vezes de existir. E colhemos os frutos disso, com as pessoas namorando e mantendo relações sexuais através da internet, tudo muito virtual, ao alcance do mouse.
Recentemente, um aluno foi preso, nos EUA, após roubar a maçã de uma professora. O rapaz só foi solto após pagar fiança de US$ 500. Enquanto no Brasil, professoras são ameaçadas nas escolas...
Grandes pensadores, como Platão, já defendiam, 400 anos antes de Cristo, que, quando os pais acostumam-se a deixar que as crianças façam tudo que querem e quando os filhos não levam mais em conta suas palavras, entre outras ações, como desprezarem as leis, aí está o início da tirania. Em síntese: pais passarem a mão na cabeça dos filhos, não os transformam em cidadãos de bem. Esse é um fenômeno espalhado em todas as classes sociais, das mais pobres às mais abastadas. Em muitos casos, os pais não sabem falar não e não colocam limites, tentam recompensar crianças e jovens com presentes. Nessa troca, estimula-se o consumismo, não há freios e concebe-se psicopatas perversos, que acham que podem tudo.
Qual o papel do Poder Público para incutirmos a sensação de segurança?
Acredito que temos encontrado, cada vez mais no Brasil, pessoas com personalidade psicopática, como a vilã Flora da novela ''A Favorita''. Nesse quadro, incluem-se, também, muitos adolescentes. Esses adolescentes que matam e praticam atos muito graves não podem chegar aos 18 anos com a ficha limpa. Em qualquer país desenvolvido, a realidade não é como a que vemos no Brasil. Precisa-se de afeto, mas, ao mesmo tempo, de limite. As pessoas têm de ser responsabilizadas por aquilo que fazem ou então estarão aptas a espalhar o medo e terror.
Precisa-se reinventar a roda?
É urgente que retomemos as relações de amizade, de namoro, do tête-à-tête. O medo de formar vínculo faz com que tudo se torne descartável. Experiências muito precoces de perda, como o contato com os pais substituídos por creches e seus diversos professores e babás, geram mecanismos de defesa para evitar o sofrimento, trazendo as sensações rápidas. Em minha tese de doutorado, analisei documentos de mais de 100 anos de trajetória de uma família. Hoje, me pergunto: na era do medo e dos e-mails que chegam e vão para a lixeira, qual documento e história teremos nas próximas décadas? Não existem lembranças.


