Na contramão da história
Ao abrir os jornais desta semana, deparei com uma notícia alvissareira em meio a tantas calamidades, desgraças e escândalos. Dizia a nota que uma pesquisa em seis regiões metropolitanas São Paulo, Rio, Belo Horizonte, Porto Alegre, Salvador e Recife mostrou que a proporção de pobres diminuiu de 29%, em 1999, para 27,9% em 2000. A informação consta do estudo intitulado A evolução recente da miséria, do economista da Fundação Getúlio Vargas, Marcelo Neri. Essa é a primeira vez que o índice diminui depois das crises econômicas na Ásia, na Rússia e no Brasil. O economista espera uma redução de 26,2% para este ano.
Esta diminuição da pobreza no País, obviamente tem a ver com a política econômica do governo Fernando Henrique Cardoso, que foi capaz até agora de manter a estabilidade monetária e a consequente previsibilidade econômica, o que por sua vez levou a conquistas sociais significativas. Mas infelizmente existe impregnada na cultura latino-americana uma tradicional mentalidade do atraso da qual é difícil escapar, e se num próximo mandato presidencial for eleito um cultor desta mentalidade, tudo que foi conquistado pode ser posto a perder, sendo que o preço será pago por algumas gerações.
A mentalidade do atraso inclui o nacionalismo estatizante, o paternalismo impeditivo do amadurecimento da Nação, o vezo salvacionista revolucionário, o apego aos privilégios oligárquicos, o clientelismo, o xenofobismo que atribui a responsabilidades externas nossas próprias falhas, o pendor para a burocracia asfixiante, o horror a tudo que signifique progresso. Mantido o atraso mantém-se a pobreza, que hipocritamente se diz querer redimir em nome de utopias ultrapassadas.
Portanto teve razão o ministro Pedro Malan quando sugeriu aos eventuais candidatos das oposições que apresentassem seus programas de governo. Isto sem dúvida seria muito bom no tocante à confiança que poderia despertar nos investidores externos, apesar de todos saberem que a maioria dos eleitos na América Latina não cumpre promessas de campanha.
Quanto à novidade que se pode observar no mundo globalizado dos grandes blocos econômicos, é que a política também mostra a tendência para associações em nível internacional. Assim, nestas plagas do fim do mundo, poderia surgir a União das Repúblicas Socialistas da América Latina (URSAL). Por que não? Não seria este o sonho de Fidel Castro, respaldado por Hugo Chávez? E se Alan García Pérez ganhar no Peru em maio, e Lula no Brasil no ano que vem, a URSAL, que parece um exercício de imaginação, pode virar realidade com as decorrências previsíveis, entre elas o agravamento da pobreza na América Latina e o consequente aumento da imigração para as Nações do Primeiro Mundo.
Para que não digam que invento, vou apenas me ater ao que já se passa em termos reais, e que ilustra bem o que é ir na contramão da história. Refiro-me a certos movimentos latino-americanos em curso, como o do MST, que atuam irmanados num só ideal: o da implantação da utopia socialista, chamada eufemisticamente de outro modelo econômico.
Neste sentido, gostaria de lembrar as palavras do economista João Pedro Stedile, um dos guias do MST. Em artigo publicado na Folha no dia 27 de março, afirmou ele: ... nossa luta deixou de ser apenas uma luta camponesa pela terra. Agora a subsistência dos milhares de brasileiros que ainda vivem no meio rural depende fundamentalmente da mudança do modelo econômico.
Stedile também critica no mesmo artigo o governo e as elites, adeptos de outro modelo, que para o economista do Movimento dos Sem-Terra incluiu as importações agrícolas, as multinacionais e a engenharia genética usada fartamente, aliás, pela China Comunista.
O líder intelectual do MST se absteve de comentar que o movimento já recebeu do governo 22 milhões de hectares de terras equivalentes a cinco Dinamarcas (revista Veja de 18 de abril). Ele prefere dizer no mesmo artigo: Nossa luta ficou mais difícil, mas o povo não tem outro caminho. Entretanto, segundo pesquisa realizada pelo Instituto Vox Populi nos dias 11 e 12 deste mês, há um crescente processo de rejeição do povo ao MST, que se acentua nas classes C e D. De cada três brasileiros que apoiavam o MST em 1977, dois já não apóiam mais.
Stedile volta à Folha no dia 18, para defender as mesmas idéias e mostrar o movimento camponês globalizado através da Via Camponesa. Esqueceu-se ele de mencionar outras entidades internacionais às quais se vincula o MST, como a Liga Operária Camponesa (LOC), organização radical de esquerda que cultua as quatro espadas: Abimael Guzmán (líder do Sendero Luminoso), Karl Marx, Lenin e Mao Tsé-Tung.
Na sua rota revolucionária, integrantes do MST invadiram no último dia 8 a Usina Aliança, a 90 quilômetros de Recife. Queimaram a casa-grande da fazenda e mais cinco imóveis, e destruíram a golpes de picareta objetos sacros, obras de arte, móveis antigos e um automóvel. O movimento não pode ser processado por seus atos de vandalismo porque não tem personalidade jurídica.
Na quarta-feira passada, os sem-terra (a maioria já é de assentados), fizeram manifestações em todo o País para exigir mais benefícios do governo e protestar contra a demora no julgamento dos policiais acusados pela morte de 19 sem-terra no conflito de Eldorado dos Carajás. Não faria mais sentido acusar os partidos de esquerda e as entidades religiosas que estimulam o movimento? Houve conflitos em alguns Estados mas pouca mobilização dos sem-terra. Não faltou também a tentativa de invasão de uma loja do McDonalds no Rio Grande do Sul.
Assim avançam os ideais da URSAL. Um sonho que parece o pesadelo no qual se caminha na contramão da história para os abismos do atraso.
- MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é socióloga, escritora e professora universitária em Londrina
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