Na calada da noite
Como em qualquer lugar do mundo, são poucos os que se lembram qual deputado elegeram na última eleição
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026
Como em qualquer lugar do mundo, são poucos os que se lembram qual deputado elegeram na última eleição
Padre Manuel Joaqui R. dos Santos 
O ladrão vem pela calada da noite, quando os incautos menos esperam. Vigilância diminuída, risco na certa! Depois de umas longas férias, eis que os nossos congressistas retornaram ao trabalho. Uso este eufemismo propositadamente, para quem comparece à Casa três dias por semana.
Chegaram ávidos em ignorar a realidade dos seus Estados ao propor um aumento de 500 milhões de reais para quem já ocupa o topo! Um aumento extra teto! Os mesmos, que há não muito tempo, ponderavam um mísero reajusto no salário mínimo. Ou os que pugnavam com o Executivo pelo ajuste fiscal. Aquele ajuste, que tirou recursos dos mais pobres, nos programas sociais! Tratando-se agora de “mimos” para os seus funcionários, estatizam assim os cabos eleitorais!
Esses senhores e senhoras vivem num mundo paralelo! E nesta loucura de distorções cognitivas, não tem partido! É de A a Z (com exceção do Psol e do Novo)! Penduricalhos, benesses, privilégios, virou regra em alguns Poderes da República! Folgas a cada três dias! Que país é este?! E o pior! Ninguém sabe mais quanto essa gente embolsa com o que lhes chega além do salário!
O país suportará um pacote de 6 bilhões de reais ao ano, com reajustes de funcionários públicos e criação de cargos na Câmara, Senado e Executivo? Ninguém esqueça que isso trará desdobramentos em esferas estaduais e municipais. Os nossos parlamentares têm o dever por ofício de zelar para que essas discrepâncias não tenham lugar, começando pela sua Casa.
Ao se omitirem, perdem totalmente a moral! São emendas parlamentares estratosféricas sem prestação de contas ou Fundos Partidários milionários, para viabilizar farras em processos eleitorais injustos e assimétricos. Em 2027, seja quem ocupar o Planalto, esta situação não terá condições de ser mantida. Ou acabará o arcabouço fiscal!
Criticar o Legislativo não pode ser um lugar comum nem um gesto banal. Tenho ciência disso. Contudo, pelo amor à democracia e ao seu funcionamento na normalidade, é que me atrevo a alertar para estas aberrações, que em última análise ferem esse regime de morte. Os avanços da extrema direita contra o “status quo” pelo mundo afora, indicando como alternativa, a vox Populi como parâmetro absoluto, refletem na sua origem as mazelas internas da própria democracia. Democracias implodem e raramente explodem, hoje em dia! Executivos medíocres, Legislativos alheios à realidade e Judiciários ricos apresentando rachaduras, são o caldo propício a convulsões sociais que só beneficiam populistas de plantão!
O Brasil não é exceção. Como em qualquer lugar do mundo, são poucos os que se lembram qual deputado elegeram na última eleição. Pode ser resquício de regimes totalitários, em que os Parlamentos confirmavam decisões ditatoriais e nobres oposicionistas eram cassados! De fato, os eleitores ainda não assimilaram, que num regime como o nosso, o Legislativo é fundamental e suas cadeiras devem ser ocupadas por gente idônea, ilibada e comprometida com a res pública! A coisa pública serve aos pobres, aos trabalhadores, aos filhos que não fogem à luta diária e que merecem todo o respeito e atenção dos eleitos. Defender as Instituições da República é poder criticá-las pelo respeito que a elas eu tenho.
Lobbys existem em todos os países. Nos EUA são regulamentados e poderíamos até dizer, uma profissão! No Brasil não! Pressão externa contra o Executivo ou o Legislativo em favor de pessoas ou empresas é um ato ilícito. Mas sabemos que os lobistas estão lá! Dentro do Congresso! Nas suas bancadas organizadas! Defendendo os seus interesses! Não me parece ilegal. Porém, os interesses da nação como um todo, devem ser o escopo maior de um Parlamento, que faz leis nacionais e não grupais ou estaduais! Num país em que 60,1% dos brasileiros viviam com até um salário mínimo per capita em 2022 e outros 31,8% tinham renda entre um e três salários mínimos, o Congresso tem a obrigação moral de os representar nas suas necessidades e demandas, garantidas pela Constituição. Assim como ao Judiciário compete a agilidade e eficácia na aplicação da justiça a essa gente.
A democracia brasileira é um tesouro que vem sofrendo ataques há anos. Preservemo-la com a seriedade e a eficácia de nossos Poderes.
Padre Manuel Joaquim R. dos Santos, Arquidiocese de Londrina


