Agora sem o tamborzinho, sem a cuiquinha, sem o pandeirinho e sem o tapa-sexo, que por si só já é diminutivo, o carnaval vai continuar. Escolas de Samba e Blocos Carnavalescos vão continuar suas evoluções, fazendo questão de mostrar seus adereços e suas alegorias. Tudo sempre com muito ‘‘tcham’’.
Só muda mesmo o endereço do samba. Da avenida, dos sambódromos ele passa para a Praça dos Três Poderes, para o Planalto e para o Congresso. Primeiro são as Escolas de Samba, com destaque para as duas maiores.
A ‘‘Mocidade Unida e Independente, Sempre ao Lado do Governo’’, de grandes tradições no samba brasileiro e que apresenta esse ano o samba enredo ‘‘Tudo o que o nosso chefinho mandar. Reeleição Já-U-Tê-Rê-R꒒. A Unida do Governo volta às raízes e apresenta um samba exaltação. Um samba rasgado sobre as maravilhas de um governo que vai atravessar o século, talvez, o próximo século também.
A outra escola do grupo especial anda em dificuldades ultimamente. Problemas internos, muitas brigas entre os seus integrantes quase levam a escola ao rebaixamento. Mas ela reagiu e está aí de novo para dar o seu recado. É o ‘‘Grêmio Recreativo dos Indignados Atônitos’’, que traz o enredo ‘‘Nem Vem Com Rolo Compressor’’ que conta as desditas, as dificuldades do grupo para se manter com a cabeça fora d’água numa época de dificuldades.
As duas têm apresentações garantidas por pelo menos mais três vezes esse ano. Na votação do segundo turno da emenda da reeleição na Câmara e nos dois turnos de votação no Senado. Mas o resultado já é esperado: a ‘‘Unida do Governo’’ deve vencer a ‘‘Indignados’’ com certa facilidade, porque tem melhor organização e, como aconteceu na Sapucaí com várias outras escolas, está sendo patrocinada por grupos que acreditam no samba e no seu desempenho.
No setor de blocos não existe tanta monumentalidade, tanto luxo, tanta exibição. Os blocos carnavalescos que devem continuar na ativa o ano todo são os blocos partidários, reunidos para aumentar o poder de fogo dos grupos políticos.
Os partidos mais cobiçados pelas agremiações maiores são o PPB, que já foi de Paulo Maluf, mas que depois da votação da emenda da reeleição está meio dividido, e o PTB que sempre está junto ao governo. De qualquer governo.
Esse PTB de hábitos livres, totalmente liberado, pode formar bloco com o PSDB. É isso mesmo, com os tucanos que no ínicio defendiam a mudança nas práticas políticas, tinham ojeriza à promiscuidade que sempre esteve presente na política. Nada mudou e os tucanos, moderninhos, aderiram de braços ao jeito antigo de fazer a política da barganha, do toma lá-dá-cá, do é dando que se recebe. É claro que com muito mais categoria.
O PFL, outro partido grande no Congresso, vive brigando com os tucanos e com o PMDB para ocupar espaço maior. O três partidos, teoricamente, defendem o governo. Mas o PFL agora anda piscando os olhos para os lados do PPB, principalmente o PPB que votou a favor da reeleição, que foi contra as determinações de Paulo Maluf.
Os esquerdistas arrependidos como os ex-comunistas do PPS, os socialistas do PSB e os verdes do PV estão sendo conversados pelos tucanos.
Mas a moda dos blocos políticos também chegou à esquerda que ainda é oposição. O PT, o PC do B e o PDT tem grandes chances de se unirem para tentar denunciar e criar obstáculos ao rolo compressor do governo no Congresso Nacional. Deter a força dos governistas eles não podem. Mas querem pelo menos cumprir o papel que cabe às minorias.
Tudo é Carnaval
- FERNANDO JOSÉ DIAS DA SILVA é jornalista.

mockup