Dr. Rosinha
O Ministério da Saúde anunciou no ano passado um mutirão de oftalmologistas para realizar cirurgias de catarata em pelo menos 50 mil idosos que estão à beira da cegueira. O País tinha entre 200 e 300 mil idosos sofrendo dessa doença. De acordo com o ministério, só entre maio e julho de 99 o mutirão realizou 66.503 cirurgias em todo o País, superando as expectativas. Além disso, foram realizadas 18.594 cirurgias pela rotina dos serviços ambulatoriais do SUS e 9.532 cirurgias em regime hospitalar, perfazendo um total de 94.629 cirurgias.
Ao comparar com 1998 – período em que foram realizadas 32.934 cirurgias – os números demonstram que o mutirão foi uma decisão correta e extremamente vitoriosa e que isso pode vir a estimular o ministro José Serra a continuar com sua política de mutirões. Tanto é que no mesmo ano, outros mutirões foram realizados: varizes, hérnia inguinal e próstata.
O mutirão (conforme o ministério) priorizou o atendimento das pessoas com mais de 50 anos, com cegueira total e parcial, e realização de cirurgias em regime ambulatorial. Os outros quatro mutirões anunciados – varizes, catarata, próstata e hérnia inguinal – foram dirigidos ao combate a patologias que poderiam ser classificadas de fácil diagnóstico por parte do profissional especializado e com pouco dispêndio econômico e numericamente, de demanda limitada, porém de difícil acesso por parte daqueles que necessitam desse tipo de atendimento.
Os eventos do tipo mutirões e campanhas devem ser limitados no tempo, pois uma política de saúde coerente, responsável e decente deve oferecer todos os serviços de saúde de maneira universal, como preconiza nossa legislação. Se determinado evento supera as expectativas iniciais, como foi o caso do mutirão da catarata, deve-se ao fato de que no Brasil há uma grande demanda por esses serviços.
A necessidade de determinado atendimento mostra que a população não pode ficar esperando eventos, pois não é a solução para o problema. Muitos não conseguiram acesso ao atendimento durante o período do mutirão, portanto a demanda reprimida continua existindo. Mantendo a atual postura dos governantes e das sociedades de especialidades, terão que esperar outro mutirão? Qual é a política de atendimento do SUS para zerar essa demanda?
O atendimento dessa população não pode ficar à mercê de mutirões, fruto de acordos realizados através do ministério, das Secretarias Municipais e Estaduais de Saúde e as respectivas sociedades de especialidades. Esses acordos são importantes, mas a questão de humanidade e solidariedade dessas autoridades e senhores não pode ficar limitada a épocas de eventos, para se apresentarem ante os holofotes da imprensa.
Ninguém cobra postura de sacerdócio no exercício profissional, mas a questão da viabilidade do SUS e do direito de cidadania passa pela responsabilidade de Poder Executivo (em seus vários níveis) e das sociedades de especialistas do nosso País à assumirem maior compromisso com o SUS.
Fora dos mutirões o cidadão comum – palavra horrível, pois significa que tem outros tipos de cidadania – raramente tem acesso às especialidades, isso porque o governo não garante o serviço ou porque os profissionais, em boa parte das vezes, por decisão das respectivas sociedades de especialidades, recomendam ao profissional a não atender mais pelo sistema público de saúde. As alegações, muitas vezes convincentes, são várias para esse tipo de decisão, porém lá na ponta tem alguém sendo vítima.
Essas sociedades, bem como os governantes, deveriam se mostrar mais humanos e solidários, fora dos holofotes da mídia, e se unirem aos usuários do Sistema Público de Saúde para que seja organizado um mutirão onde possam ser debatidos todos os problemas e dificuldades do sistema, superá-los e definitivamente implantar o SUS.

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