Mundos encantados - Gaudêncio Torquato
Mundos encantados
Gaudêncio Torquato
A moderação é um dos maiores valores da política. O homem moderado, ensinava Aristóteles, nunca permitirá que o exaltem ou o rebaixem. Não há de se orgulhar com o triunfo nem há de perder a coragem com o fracasso. Não há de pensar nem procurar elogios para si próprio nem censura para os outros. Franco Montoro, que desaparece da cena política brasileira, era um moderado. Seu desaparecimento propicia uma reflexão sobre os valores da política brasileira.
Se na presença de Ghandi, qualquer pessoa sentia vergonha de fazer algo indigno, ele que personificava a honestidade, a presença de Montoro era um convite ao respeito, à deferência e ao culto das grandes idéias. No ciclo político do ex-governador de São Paulo, a doutrina vicejava e as utopias povoavam as mentes. Em seus últimos anos de vida, viu a política brasileira cedendo aos impulsos personalistas, as doutrinas murchando, os partidos políticos transformando-se em siglas de ocupação passageira, o declínio do parlamento e a administração das coisas substituindo o governo dos homens.
O que vai embora com Montoro? Muito de um mundo encantado, onde os atores políticos empunhavam bandeiras cívicas, eram aplaudidos em cena aberta, admirados e venerados pelos eleitores, respeitados pela coerência e dignidade no comportamento pessoal. Na sociologia política, há dois conceitos que procuram expressar o perfil dos representantes. Um é a identidade, entendida como a expressão do caráter do político, sua história, sua verdade; outro conceito é a imagem, que é a extensão projetada da identidade, ou seja, aquilo que chega ao domínio público pela versão e interpretação dos meios de comunicação.
Em alguns políticos, a distância entre a identidade e a imagem é assombrosa. A imagem que querem projetar não corresponde à verdade da personalidade, sendo, frequentemente, falsa. Em Montoro, identidade e imagem se aproximam, imbricando-se harmoniosamente, fechando por inteiro o axioma cesariano: a mulher de César parece tão honesta como verdadeiramente o é. O estilo Maquiavel da maior parte dos atores políticos nacionais não combina com o estilo Ghandi, de Montoro, para quem, como o indiano, não existem inimigos e sim adversários que devem ser respeitados. O líder, segundo essa concepção, não deve ser apenas um servidor do povo que renuncia a qualquer privilégio, mas também deve privar-se dos prazeres para consagrar suas energias ao projeto político.
A utopia de Montoro era o parlamentarismo, semente que deixou em um projeto que certamente voltará ao debate no Parlamento. Em seu mundo de esperanças, a honestidade repousava como valor central. Não deixa herdeiros políticos. Fernando Henrique, o sociólogo, há muito tempo apagou o facho social que iluminou sua mente até o dia em que teve de trocar o fusível humanista pelo chips monetarista; em Mário Covas, a equação racional do engenheiro canibaliza o humanismo de Teillard de Chardin, que inspirou a vida de Montoro; José Serra é um social-democrata pragmático, que se guia pela leitura do momento; Paulo Renato é um burocrata orgânico do ensino.
O Brasil que Montoro deixa é um território repartido de interesses. O sonho de uma Federação assentada na convivialidade está comprometido pelo fatiamento personalista e interpartidário. A despolitização é geral. Grandes conjuntos organizados tomam conta da política e da economia. A descrença do povo em relação aos políticos aumenta em escala geométrica, enquanto a corrupção cresce em escala aritmética. No campo dos costumes, os valores perdem sentido, e os conceitos se invertem. A felicidade é uma questão de acumulação material, um sutil equilíbrio entre o que uma pessoa é e o que tem, como lembra o escritor norte-americano J. H. Denison.
No dia do enterro de Montoro, os jornais anunciavam a monumental festa O mundo encantado de Sasha, presente de Xuxa para sua filha, onde serão distribuídos mais de mil coelhos (animais vivos) e um ursinho de pelúcia. Um ritual que, além de glorificar o sistema do estrelato, é um pequeno ensaio da coisificação dos seres. O pai, Luciano, desistiu da parceria do patrocínio porque achou gorda a conta de R$ 190 mil. Como se vê, o mundo acoelhado, quantificado e coisificado de Xuxa faz parte de uma galáxia que empurra para o buraco negro a estrela espiritual de Montoro. Até parece que uma chuva radiativa, fruto da fissão dos valores fundamentais, se abateu sobre a nossa sociedade, gerando antinomias e deformidades, promovendo o antagonismo entre os sonhos esperançosos do passado e a festa macabra do futuro.
GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista, professor titular da USP e presidente da ABCOP (Associação Brasileira de Consultores Políticos)





