Criada há cinco anos, a ONG MUNDOQUELÊ tem como objetivo principal fomentar a leitura entre londrinenses que não têm acesso a livros e jornais. Em entrevista à FOLHA, a professora e presidente da entidade, Neuza Ceciliato, faz um balanço das atividades, adianta as intenções para o futuro e defende a leitura reflexiva. A escola, segundo ela, é determinante na formação do público leitor.

Qual o balanço dos cinco anos de atividades da ONG?
Priorizamos alguns objetivos no decorrer desses cinco anos. Trabalhamos com cursos para professores, cursos voltados a crianças. A ONG já ajudou a organizar a biblioteca do Jardim Franciscato e de outros bairros de Londrina. Uma de nossas premissas é atuar em setores que não têm muito acesso ao livro.

Quais os novos projetos?
Vamos fazer campanhas de sensibilização pela leitura, elaborar e executar programas em matéria de pedagogia da leitura e de luta contra o analfabetismo e, num plano mais amplo, fazer uma avaliação da leitura nos diversos níveis de ensino. Esse é um projeto ambicioso, que não é simples e fácil de fazer. Demandará tempo, mas não deixa de ser nosso objetivo. Queremos, também, estudar formas que contribuam com o ensino da leitura e que não tenham a ver somente com a escola. A questão hoje não é somente eliminar o analfabetismo verbal, mas também o analfabetismo digital.

Dia 8 passado comemorou-se o Dia Internacional da Alfabetização. Como professora de Literatura, qual sua visão a respeito da leitura?
Acredito que o mundo da imagem, regido pela internet, pela tv e todos os meios eletrônicos influencia o vocabulário, nem sempre próprio da criança. O mundo da imagem, que nos chama, deixou um pouco de lado a leitura mais aprofundada. Não se pode dizer que os índices de leitura diminuíram, as editoras crescem, os livros e jornais estão aí. Não se pode dizer que não há leitura. O que percebo é que a capacidade de leitura fica a desejar.

Como resolver?
Com a sociedade contemporânea nos chamando para a imagem, para o exterior, acredito que a leitura não possa ser ignorada, pois vem de dentro. Não defendo somente o universo literário. Defendo a leitura de textos informativos. Penso que muitos alunos, que não passam em vestibulares ou têm dificuldades na escola, não detêm o domínio da leitura. Um exemplo é a leitura de jornais em sala de aula. É um serviço dos mais úteis e as escolas deveriam cada vez mais incentivar os alunos a conhecer uma manchete, uma notícia de capa, o enfoque dos cadernos e a linguagem do jornal, que tem a objetividade, textos mais curtos. O trabalho que a FOLHA faz é muito importante, incentivando a leitura em sala de aula. É um meio de o professor ter acesso ao jornal e levar à tona ao aluno a compreensão da leitura, ensinando-o a ler. Essa leitura deveria constar em disciplina, pois gera o comprometimento, mostrando que cada veículo tem uma linguagem e um objetivo a atingir.

Hoje se fala muito do analfabeto funcional...
Exatamente. Daí a importância de mostrar à geração Harry Potter que, da bula do remédio à lista telefônica, ler é essencial. Por maior que seja o apelo de uma foto, a linguagem visual caminha com a linguagem verbal. Somente com a leitura reflexiva é que se chega à compreensão do que está sendo colocado e de uma dinâmica maior de determinado texto para saber de onde ele parte, qual é o sujeito e o lugar, ampliando a leitura em qualidade.

Mas a senhora é contra a leitura de ''massa''?
Não. Acredito que as pessoas devem ler esses livros. Mas defendo um processo de leitura, no qual, gradativamente, o leitor passe a consumir grandes autores, poetas... A questão é ampliar os horizontes e cabe à escola fazer isso: o fim da obrigatoriedade de leitura de um livro para posterior aplicação do conteúdo, em prova, é um exemplo.

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