Com o advento dos meios de comunicação contemporâneos, destacadamente a televisão transcontinental, a telefonia de longa distância e a internet, fala-se mais intensamente de um mundo globalizado, com o significado de que os povos de todas as nações se aproximaram mais. Tal é verdadeiro apenas quanto ao intercâmbio global com sons e imagens virtuais, porque as pessoas continuam segregadas e não entram em outro país sem visto e passaporte. Isto quer dizer que a globalização é apenas parcial. Um exemplo é a deportação de brasileiros que estão ou desejam entrar na Espanha e no México (citando-se os casos mais recentes), e idêntico procedimento toma o Brasil com relação a espanhóis e pessoas de outros países que chegam e intentem ficar.
De há muito os Estados Unidos fecharam a fronteira do sul para não permitir a entrada principalmente de mexicanos e pessoas oriundas de países centro e sul-americanos, que tentam penetrar clandestinamente por essa passagem. A Europa inteira luta para barrar a entrada de imigrantes de todos os países que buscam trabalho, e discrimina sobretudo a gente mais humilde procedente do estrangeiro e que, no entanto, presta serviços pesados e sujos que os patrícios não querem fazer. O Brasil foi no passado o abrigo de imigrantes que, fugindo da miséria extrema, encontraram um novo lar neste país, embora também aqui eles tenham passado por regime de quase escravidão, caso dos primeiros japoneses, nas lavouras paulistas de café. O Japão industrializado depende bastante, hoje, dos dekasseguis, que são os descendentes dos oriundos desse país que aportaram no Brasil no início do século passado, mas não se pode afirmar que sejam bem tratados lá. Muitos países se valeram dos imigrantes de outrora e se valem dos que ainda chegam hoje, mas não os respeitam como iguais.
Não há como fazer cobrança como a de que o Brasil abrigou espanhóis e hoje a Espanha hostiliza brasileiros em seu território. Nem se pode cobrar italianos, alemães, árabes, portugueses, se hoje dificultem o ingresso de brasileiros em seus países. Até porque os estrangeiros dessas etnias que vieram ao Brasil trouxeram grandes benefícios, e seus dependentes compõem hoje a mescla da nação brasileira. Cada país segue suas leis e a contingências do momento. Todos, Brasil incluído, procedem da mesma maneira.
Não se pode, portanto, afirmar que o mundo é uma aldeia global, como queria McLuan. Porque as comunicações vão e retornam via satélite e encurtaram distâncias, mas as pessoas não têm acesso se tentam entrar no espaço alheio para ficar. Sob esse aspecto o comportamento humano é ainda primitivo, discriminador e pouco solidário.

mockup