'O empresário brasileiro não está acostumado a planejar.' A afirmação é de André Luís Rodrigues, coordenador técnico da Fundação Dom Cabral, cuja função é formalizar e implementar planejamentos estratégicos dentro de empresas.
Segundo Rodrigues, a falta de planejamento faz com que empresários não evoluam em seus negócios ou consigam resultados lentos e aquém dos esperados. 'Nem sempre a culpa é da concorrência, ou do mercado financeiro'. O programa da Fundação que ajuda esses empresários chama Paex, e significa 'Parceiros para Excelência'.
Na entrevista que deu à FOLHA, o coordenador técnico explica que uma das maiores dificuldades hoje enfrentadas pelos empresários está na administração do negócio, e é por isso que muitas vezes é necessário recorrer a ajudas externas.
Qual é a diferença entre o trabalho de transferência de conhecimento dentro das empresas e a consultoria tradicional?
Na consultoria empresarial você é contratado para fazer um levantamento de dados sobre a atual situação da empresa e depois entrega um relatório sobre qual seria a situação ideal. O que a gente faz é o trabalho de transferência de conhecimento, que consiste em aplicar a metodologia de planejamento estratégico nas empresas. Isso porque é necessário ensinar os empresários a planejar. O Paex possui várias atividades que visam, entre outras coisas, capacitar o profissional para executar o proposto pelo programa e se tornar cada vez melhor. Ou seja, profissionalizar os funcionários que já estão na empresa.
Por que é importante procurar esse tipo de serviço?
É necessário sempre melhorar a qualidade da gestão do negócio. Normalmente os donos não buscam ajuda quando a empresa é pequena ou média, porque eles vão conseguindo administrar. A partir do momento que esse negócio começa a crescer, a administração começa a ficar mais complexa. Seja pelo número de concorrentes, que aumenta, ou mesmo por aumentar o número de serviços e produtos que ela oferece ao mercado. Nesse estágio a consultoria entra para ajudar esses empresários a aplicar as metodologias de gestão para que o negócio tenha longevidade, lucratividade e bons resultados.
Existe diferença na hora de aplicar essas metodologias conforme o tipo de empresa?
As empresas familiares são as mais complicadas. A administração tem que estar disposta a aprender. O que nós fazemos, como já comentado, é transferir conhecimento e, se os gestores não estiverem prontos para colocar em prática o que for proposto, não adianta consultar a Fundação. Pessoalmente, prefiro trabalhar com empresas familiares. No entanto, é claro que existem pontos negativos. Se as pessoas da família não forem tratadas de forma profissional, por exemplo, isso se torna um problema.
Depois da crise mundial, do ano passado, o número de empresas preocupadas com consultoria aumentou?
É fato que as pessoas precisam evoluir nos seus negócios, e nem sempre os empresários conseguirão fazer isso sozinhos. Mas, a resposta é não. Essa procura não aumentou, e também não diminuiu. A crise aconteceu devido a uma má gestão. Então, os empresários precisam entender que a empresa tem que planejar para estar bem estruturada, assim ela passa por uma crise praticamente ilesa.
E existe algum programa de conscientização, junto aos empresários, de que é necessário se preparar para crises, ou até mesmo para a concorrência?
O programa Paex hoje possui em torno de 400 empresas participantes na América do Sul e em Portugal, entre médias e grandes empresas. A Fundação tem aproximadamente 350 profissionais no Brasil e no mundo que fazem esse trabalho de divulgação e conscientização com palestras, geração de conhecimento e pesquisas. Além disso, existe um trabalho focado somente para grandes empresas, como Grupo Votorantin, Vale do Rio Doce e Banco Itaú, por exemplo. Nós estamos juntos com escolas de negócios internacionais da França, e dos Estados Unidos. Fomos considerados, pelo Financial Times - jornal norte-americano - como a sexta escola de negócios do mundo. A primeira da América Latina.
O que mais preocupa os empresários atualmente?
A deficiência no planejamento faz com que o empresário tenha ainda mais dificuldade em enxergar à frente e é assim que os problemas surgem. Muitos pensam que o problema é a concorrência. Mas, o pensamento tem que ser 'será que o problema está lá fora ou eu que não estou fazendo meu trabalho de forma adequada?'. Crises não são problemas de mercado, são problemas de gestão. A empresa que tem um planejamento forte e possui caixa para futuras crises de mercado fica mais tranquila. A preocupação dos empresários está na concorrência e nas crises, e às vezes eles não entendem que o mais importante é planejar para que crises não aconteçam dentro do próprio negócio.

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