Mundo do faz-de-conta
Maria Lucia Victor Barbosa
Observando o que acontece ao meu redor, começo a desconfiar cada vez mais que as coisas não se passam exatamente como costumam ser descritas, e que vivemos no mundo do faz-de-conta. Na imprensa isso acontece não só através de notícias fartamente prodigalizadas por políticos, cujas encenações na maioria das vezes se distanciam da vida real, mas também por parte de alguns jornalistas que publicam notícias sobre fatos que nunca existiram, ou noticiam fatos existentes mas que sofrem sua interpretação pessoal a ponto de se descaracterizarem completamente. Entretanto, paralelamente à imprensa existem outros ‘‘sistemas’’ igualmente amplos e poderosos, onde o faz-de-conta instala o paradoxo e brinca com o absurdo como se estivesse distribuindo a verdade e garantindo a certeza. Um desses ‘‘sistemas’’ é o educacional, se não no seu todo pelo menos em parte.
Para exemplificar, recordo quando meus filhos eram crianças e frequentavam o primeiro grau. O mais velho, que tinha na ocasião nove anos, sempre que chegava em casa após as aulas repetia certas teorias de uma de suas professoras para demonstrar o quanto havia aprendido nas aulas: ‘‘Mãe, sabe porque os nordestinos comem muito doce? É para compensar a pimenta que comem muito também. E sabe por que não tem elefantes na floresta amazônica? Porque lá a mata é muito fechada e eles teriam dificuldade para passar’’.
Cheguemos, porém, ao nível universitário, e encontraremos também o faz-de-conta vestido com a beca da pretensa sabedoria. De novo ressalve-se que nem todos, mas o fato é que muitos dos historiadores, cientistas sociais, cientistas políticos, economistas etc também são chegados a licenças, não poéticas, mas científicas.
Analisemos o caso da história. Afinal, esta ciência pode facilmente se transformar na interpretação do historiador, guiado por sua ideologia e baseado em fenômenos equivocados ou superficiais. E na medida em que o ser humano adora viver de ilusão, ama os mitos e tem a tendência a exagerar e a distorcer os acontecimentos sobre os quais se baseiam os historiadores, pergunto a mim mesma: onde acaba a história e começa a ficção, e vice-versa, especialmente nesse país do improviso, povoado por gente tão loquaz, sentimental e imaginativa?
Mas não é só a história que padece da confusão entre ficção e realidade, como aconteceu na extinta União Soviética quando Stalin eliminava pessoas até de fotografias para alterar os rumos dos acontecimentos. O cientista social também pende para o irreal com grande desenvoltura quando se deixa levar mais pela militância do que pela ciência. O problema crucial é que a ficção que passa a existir através de análises pretensamente sociológicas não poderia ser aquela encontrada na boa literatura, mesmo porque no cerne de determinadas invencionices está a distorção da realidade com objetivos descaradamente políticos, como é o caso de recentes estapafúrdias interpretações sobre o neoliberalismo.
Isso lembra ‘‘O Imbecil Coletivo’’, de Olavo de Carvalho. Afirma o autor que a maioria dos cientistas sociais ‘‘deixa ao público o encargo de guiar-se, como possa, por idéias contraditórias envoltas num verniz de coerência verbal e aureoladas de prestígio científico’’. Mas ele admite que essa é a tendência dominante na intelectualidade brasileira e não só entre os cientistas sociais. De fato ela aparece de maneira evidente em livros, jornais, revistas, filmes, programas de televisão. Até parece que nossos intelectuais, descontando, é claro, as exceções, se inclinam ainda para um ‘‘sociologismo’’ marxista que conduz ao ‘‘histrionismo científico’’, ou, para usar ainda palavras de Olavo Carvalho, ‘‘ao hábito do pensamento duplo, incoerente e leviano, que se espalha por toda a sociedade’’.
Esse assunto acerca de intelectuais (ou pseudo-intelectuais) praticantes do ‘‘sociologismo’’, leva também a recordar um dos livros mais importantes, vigorosos e bem escritos da atualidade: ‘‘O Manual do Perfeito Idiota Latino-Americano’’, de autoria de Carlos Alberto Montaner, Alvaro Vargas Llosa e Plinio Apuleyo. É que nossos praticantes do ‘‘histrionismo científico’’ fazem relembrar o ‘‘idiota’’ ao qual se referem ao autores do ‘‘Manual’’, e que, conforme explica Mario Vargas Llosa no prefácio do livro, não é o congênito ou aquele que normalmente ‘‘desperta afeto e simpatia’’. A idiotice documentada pelo ‘‘Manual’’ é ‘‘postiça, deliberada e eleita, adotada conscientemente, por preguiça intelectual, modorra ética e oportunismo civil. Ela é ideológica e política, mas acima de tudo, frívola, pois revela uma abdicação da faculdade de pensar por conta própria, de comparar as palavras com os acontecimentos que elas pretendem descrever, de questionar a retórica que faz às vezes de pensamento’’.
Portanto, distinguir o falso do verdadeiro não é tarefa fácil, e prefiro às vezes me refugiar na boa ficção, lembrando-me, é claro, que muita coisa que se intitula de literatura e arte também não passa de faz-de-conta. Afinal, parece que até o Ratinho virou escritor, e daqui a pouco vai sair por aí dando palestras como tanta gente deu em fazer.
- MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é socióloga

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