As campanhas eleitorais, como sempre, trazem à tona espetáculos nada bonitos de se ver. É que justamente nessa época, tem-se a desagradável sensação de que há um processo de involução do ser humano, pois o que mais acontece é o triunfo da mediocridade e da malandragem sobre a inteligência e a honradez.
Mas se estratagemas dos mais pilantras aos mais caricatos emergem de forma contundente nesses períodos, não só os candidatos do tipo circenses povoam o picadeiro da política, como outros espécimes do poder lutam para assumir o controle, satisfazendo assim suas ambições ou sua vaidade.
Desse modo, verga o Brasil sob sandices de vários matizes. Por exemplo, determinados grupos lideram o calote da dívida externa, fazendo sua peculiar guerra santa das políticas sociais. Com perguntas capciosas, induzem o povo a votar no que não entende, e gente às pencas entra entusiasticamente em filas, porque é impossível resistir-se à fila.
Somos o povo da fila. Amamos estar em filas. Se uma fila se formar todos se colocam nela, serpenteando sérios e felizes mesmo que não saibam o porquê de estarem ali. Só que não explicaram aos da fila do calote, que uma eventual suspensão da dívida externa em nada contribuiria para fazer a felicidade dos mais pobres. Pelo contrário. Lucrariam as grandes empresas privadas porque 60% da dívida, ou US$ 139,2 bilhões, lhes seriam perdoados. Para culminar, seria fechado o acesso ao mercado internacional. Como se insiste na coisa, pode-se vislumbrar recessão à vista, mais desemprego e volta da inflação. E não adianta fazer estas ponderações aos donos do plebiscito. Cientes de sua capacidade de prodigalizar a catástrofe, eles prosseguem exultantes, com aquele prazer salvacionista que tanta desgraça já trouxe ao mundo.
Mas sem dúvida, essa certeza de conquistar o caos conta com a credulidade que campeia nos espíritos, e que faz do bicho homem a criatura otária por excelência. Como escreveu o jornalista H. L. Mencken, ‘‘as idéias que mais rapidamente conquistam a raça, levantam os mais vibrantes entusiasmos e são defendidas com maior tenacidade, são justamente as mais insanas’’. A CNBB sabe disto, o PT também, a CUT idem, os mentores do MST igualmente e por aí vai. Hitler aconselhava a grande enganação, pois quanto maior a mentira, dizia o líder nazista, mais o povo acredita nela. Galopemos portanto rumo aos cafundós do atraso, mas profundamente entusiasmados com a peta que nos pregam nossos defensores, que dizem querer apenas nosso bem.
Enquanto isso, os sem-terra pintam, bordam, viajam de um lado para o outro, invadem prédios públicos, sacodem foices e martelos, gritam desaforos e acampam pela quarta vez diante da fazenda da família do presidente da República, sendo que esta última provocação se ajusta como uma luva às profundas frustrações do governador de Minas Gerais.
Alteando ainda mais seu topete que parece implantado, o governador restabelece sua pândega particular: concede entrevistas, vira pop star na televisão, exige a retirada das tropas do Exército postadas em Buritis, diz que está sitiado, ameaça com seus policiais ‘‘guerrilheiros’’, pede a desapropriação da fazenda, dá risinhos sarcásticos e se sente glorioso como um Napoleão de Juiz de Fora.
Dane-se a Nação que ele quer é se vingar, como fez em 99 quando jogou as bolsas de valores para o alto e deu marcha à ré na economia nacional montado num Fusca. O pior é que não tem ninguém para internar o homem. Pelo contrário, ele faz sucesso. Lula correu para abraçá-lo no ano passado, e o grande Itamar distribui medalhas da Inconfidência a mancheias em Ouro Preto. Era o próprio Tirandentes sem o perigo da forca, porque a corda ele colocou no pescoço do Brasil.
Turva-se assim o País onde cada vez mais se rouba e cada vez menos se paga pelos delitos cometidos, enquanto a massa é perigosamente manipulada, e estas cenas de uma tragédia anunciada fazem retornar ao pensamento de Mencken: ‘‘O instinto do homem, de fato, nunca se dirige para o que é sólido e verdadeiro; prefere tudo que é especioso e falso. Se uma grande nação moderna se confrontar com dois problemas conflitantes – um deles baseado em argumentos prováveis e racionais, o outro disparando em direção ao erro mais óbvio – ela, quase invariavelmente, adotará este último.’’
Como isto lembra política, voltemos às campanhas eleitorais onde predominam as promessas impossíveis, o non sense, o ridículo e a bandidagem. Sobre este último aspecto se torna didático citar o caderno especial ‘‘Câmara Municipal S.A.’’, de ‘‘O Estado de S. Paulo’’ de domingo passado. Nesta matéria se demonstra que os candidatos de São Paulo continuam mercadejando o voto, sobretudo na periferia. Além disso, ‘‘215 candidatos a vereador – ou 1 em cada 5 aproximadamente – têm registro criminal. Dezessete dos atuais vereadores estão nessa situação. O rol de delitos inclui, em ordem decrescente de frequência, estelionato, lesão corporal, receptação, apropriação indébita e contravenções diversas. Há dois acusados de homicídio, seis de furto e um de sequestro. Além do mais, 23% dos candidatos emitiram cheques sem fundo e 17% têm protestos registrados’’. Provavelmente, muitos deles se elegerão, pois a lei é omissa ou complacente, não estando preparada para alterar esta realidade nacional que o direito costumeiro já consagrou.
E enquanto bandidos, malandros e estelionatários pretendem continuar no poder ou se alçar ao poder, o jornal ‘‘O Globo’’, do Rio de Janeiro, transcreve na coluna de Hildergard Angel a maneira como um candidato à reeleição, o prefeito de Araruama (RJ), inicia seus discursos em comícios: ‘‘Meu povo e minha pova, com minha fé e a fé de vocês, vamos juntar nossas fezes.’’ Como disse meu amigo de São Paulo, o jornalista Luiz Ferreira Lima, que me enviou a matéria, ‘‘isso não deixa de ter certa profundidade, né?’’
Já no palanque eletrônico do programa eleitoral gratuito passado em Londrina, um candidato a vereador alerta: ‘‘No dia 1º de outubro não tenha medo, use o dedo!’’ E eu pergunto: será que este mundo desatinado, picadeiro da perdição, tomará jeito um dia?
- MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é socióloga, escritora e professora universitária em Londrina
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