Em "A rima do antigo marinheiro", o poeta britânico Samuel Coleridge descreve a agonia da sede vivida pelos tripulantes, especialmente quando se veem cercados por água. O que a poesia retrata no século 16, sede diante de água em abundância, é uma realidade brasileira.
"Água, água por toda a parte, e todas as pranchas se contraíram, água, água por toda a parte e nenhuma gota para beber." Na obra, com a imensidão do mar em calmaria, é fácil entender o significado da expressão sobre pranchas contraídas. Igualmente, o mar de água salgada permite a exata compreensão da sede naquele contexto. No Brasil, a falta de água – mesmo no Nordeste - é mais uma questão de mau gerenciamento, do que falta do recurso.
De acordo com o Instituto Trata Brasil, aproximadamente 8 bilhões de litros de esgoto sem qualquer tratamento são lançados diariamente nas águas pelas cem maiores cidades brasileiras. O volume representa 36% de todo o esgoto gerado nesses municípios.
Não se deve esquecer de que os índices de saneamento nos municípios menores são, de modo geral, piores. A média nacional para coleta de esgoto é de 52%. Pior ainda é que entre coleta e tratamento há um abismo a ser superado. Nesse que é um dos principais indicadores de qualidade de vida de um país – saneamento básico – o Brasil ocupa apenas a 112ª colocação entre 200 países analisados. Para esse péssimo desempenho, contribuem as perdas na distribuição de água – já devidamente tratada –, e que atingem 38%. Mais do que corrigir obras, equipamentos e tecnologia que pararam no século passado, a solução passa por políticas de gestão no uso dos recursos hídricos com sustentabilidade – inclusive com responsabilidade solidária.
Especialistas alertam que mais importante que a quantidade de água é o uso que dela se faz. Quando o gerenciamento é mal conduzido, não é a falta de água que afeta a sociedade, mas a falta de água potável. Assim, lembram que também ultrapassada é a crença de que o recurso é ilimitado. As mesmas águas que mataram a sede de dinossauros são aquelas que hoje saciam a sede de culturas de sojas transgênicas. Esse volume constante, para uma população crescente, evidencia maior demanda e necessidade de melhor gerenciamento. Olhar apenas para o Nordeste quando o assunto é crise hídrica é uma visão muito míope. Aliás, precisou a crise atingir São Paulo para que o assunto que tanto castiga brasileiros, de norte a sul, se tornasse importante. Mas olhar apenas para o Sudeste nesse momento significa repetir o erro, como quem olha para a Amazônia e não vê relação entre as secas do Centro-Oeste, do Sul e do Sudeste. Cada árvore na Amazônia brasileira bombeia 500 litros de água por dia. Ao todo, a floresta envia 20 bilhões de toneladas de água diariamente para a atmosfera e por isso é fundamental para o clima global.
De fato gestores e usuários no país estão no século passado. Quando o assunto é crise da água, economistas apresentam a máxima resposta do mercado baseada na lei da oferta e da procura: se falta o produto, no caso a água, a solução é aumentar o preço. Para os profissionais da construção civil projetos de captação e uso inteligente da água são ainda muito incipientes. A realidade no país é: ou a água – potável - é utilizada até mesmo nos vasos sanitários ou é bebida sem qualquer tratamento. Usuários ainda tratam o recurso como se ilimitado fosse e, assim, o desperdício somado àquele da distribuição ultrapassa 50%. Legisladores não investem no saneamento, preferem obras fisicamente mais visíveis e eleitoreiras. Esquecem-se todos da finitude do recurso.
Assim, no país de maior reserva de água continental do planeta, a poesia também avisa: "Águas que movem moinhos são as mesmas águas que encharcam o chão e sempre voltam humildes pro fundo da terra". Em outras palavras, cuide melhor, porque nem chuva "cai do céu".
REGINALDO JOSÉ DA SILVA é biólogo pós-graduado em Análise Ambiental e policial militar em Londrina

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