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terça-feira, 06 de abril de 2010
Érika Gonçalves<br>Reportagem Local 
Profissional dedicada, mãe atenciosa, boa esposa, amiga solícita, filha paciente. Qualquer mulher conhece pelo menos dois desses papéis, quando não todos eles, e a maioria é capaz de desempenhá-los com maestria, ao mesmo tempo.
O resultado disso podem ser muitos elogios, um casamento duradouro e promoção na carreira. Mas também muita dor de cabeça, cansaço e insatisfação pessoal. Equilibrar todos os pratos ao mesmo tempo requer muito esforço e por isso a mulher acaba abrindo mão das coisas que lhe dão satisfação para conseguir agradar ao outro.
Anderson Cavalcante é palestrante e faz uma análise desse hábito feminino. ''As coisas que realmente importam na vida têm custo zero. As pessoas se matam para conseguir muito dinheiro ou pouco dinheiro e se esquecem disso'', ressalta.
A mulher tem o estereótipo de conciliar trabalho, filhos, marido, tudo junto e ao mesmo tempo. Isso é um mito?
Não, pelo contrário. É realidade, mas isso nasce na mente da mulher. Antigamente ela cuidava da aldeia, tinha que colocar lenha na fogueira para evitar a aproximação dos animais, tinha que cuidar dos filhos, da comida, enquanto o homem só saia para caçar. A mulher nas últimas décadas foi para o mercado de trabalho e começou a assumir ainda mais papéis. Só que ela não mudou a mentalidade, a expectativa dela de querer dar conta de tudo continua sendo a mesma.
Por que as mulheres ainda colocam os seus desejos em último lugar?
Porque elas têm a mania de querer servir ao outro, de querer ajudar, de querer contribuir. A mulher tem uma capacidade natural de acolher o outro, de sentir a dor do outro, com o objetivo de diminuir aquela dor, ela quer acompanhar cada momento, estar presente. O homem é mais pragmático, mais racional, ela é muito mais emocional, intuitiva. Ela prioriza o outro, e acaba não sobrando tempo para ela, como uma consequência. Ela adoraria, mas nunca dá tempo.
As mais jovens também têm esse perfil?
Sim, mas acredito que no decorrer das próximas décadas isso irá mudar. Nas próximas décadas a mulher vai acabar sendo mais objetiva, direta. Mas a mulher nunca vai perder o jeito carinhoso e generoso que ela tem de acolher todos aqueles que estão ao seu redor.
Podemos dizer que a mulher não sabe lidar com o tempo livre?
Não só as mulheres, os homens também. Se a gente inventasse um software que conseguisse gerar mais quatro horas para as pessoas, para elas fazerem o que quiserem, mais da metade não saberia o que fazer. Quando você estimula, a resposta é colocar e-mails em ordem, ir nas festas em que não dá tempo de ir, dormir. Você começa a ver que a pessoa não tem a noção da grandeza que é a vida. Uma coisa é você estar com o sono atrasado e querer dormir três, quatro dias para colocar o sono em ordem. Outra é você ter quatro horas a mais por dia e querer passar essas quatro horas dormindo. A vida é mais do que isso. As pessoas estão tão na roda-viva, acostumadas a viver com aquela sobrinha de tempo que têm, que elas acabam não se permitindo curtir o tempo que elas têm livre.
Será que é sensação de culpa, por estarem ''não fazendo nada''?
Tem essa sensação de culpa sim. As pessoas têm tanto a sensação de que devem estar produzindo alguma coisa que quando têm um momento livre precisam arrumar alguma coisa para fazer e não necessariamente que seja algo que importa pra ela naquele momento. As pessoas não param para prestar atenção em qual é o seu propósito de vida, qual é sua missão, o que importa para sua vida. Estão tomando decisões no dia a dia sem ter consciência dessa decisão.
Como e quando as pessoas podem descobrir a importância de valorizar outras coisas além do trabalho?
Existem algumas perguntas que ajudam a pessoa a identificar isso. ''O que eu faria na vida todos os dias independentemente da remuneração financeira? O que eu gosto de fazer? O que é que quando estou fazendo sinto que estou em meu estado de plenitude, de altíssima realização?''. São alguns caminhos para isso. É buscar ouvir sua vocação. As pessoas ficam buscando a resposta fora quando na verdade a resposta está dentro de nós. A pessoa sente quando ela está fazendo algo que agrada a ela. A gente sente aquilo e sabe o que significa para nós. Missão é o combustível da alma, é o propósito maior.
A mulher tem capacidade natural de acolher o outro
Missão é o combustível da alma, é o propósito maior


