Atualmente, ex-atleta se dedica a palestras e eventos, mas adianta que trabalha em novos projetos
Atualmente, ex-atleta se dedica a palestras e eventos, mas adianta que trabalha em novos projetos | Foto: Saulo Ohara



Na semana passada, a multicampeã do vôlei Fofão, ouro olímpico em Pequim-2008, esteve em Londrina para ministrar palestra destinada a mulheres em um evento promovido por uma empresa especializada em revenda de insumos agrícolas. A ex-levantadora, de 48 anos, sendo 30 deles dedicados ao esporte, disse que o tema da palestra foi "superação", e que teve inspiração em sua biografia, lançada no dia 10 de abril. "Toque de gênio - a história e o exemplo de Fofão", foi escrita pelo jornalista Rodrigo Grilo e pela professora do Grupo de Estudos Olímpicos da USP (Universidade de São Paulo), Katia Rubio.

A reportagem da FOLHA conversou com Fofão que comentou sobre o seu livro e de assuntos relacionados à sua carreira no vôlei como evolução da seleção feminina e da relação com os técnicos Bernardinho e José Roberto Guimarães, apontados por ela como os melhores do mundo, e de desentendimentos com o treinador Marco Aurélio Motta. A ex-atleta que jogou até os 45 anos também falou sobre a longevidade na carreira.


O que você aborda no seu livro "Toque de gênio"?

Eu conto a minha pessoal e profissional de uma maneira onde as pessoas nunca tinham ouvido falar da Fofão, que só conhecem dentro de quadra. Na verdade, o objetivo do livro é mais de deixar mensagens e inspiração para as pessoas. Também abordo coisas que me arrependi durante a carreira e outras que fiz dentro do vôlei que valeram a pena. De bastidores são mais os depoimentos das pessoas. Eu até queria contar umas fofocas, mas o objetivo não foi esse. Mas tem muita história. É mais para relembrar e as pessoas verem como que a gente consegue chegar onde eu cheguei e servir de exemplo positivo para os outros, que somos capazes de chegar independente da nossa condição social e que só depende da nossa luta.

Como foi o processo de produção?

No primeiro ano depois que eu parei de jogar, nós juntamos as ideias. Esse processo durou praticamente um ano e meio, para colocar no livro. Foi mais difícil recordar as histórias e relembrar tudo o que tinha que ser falado, mas ao mesmo tempo foi muito bom porque eu consegui rever histórias onde pude agradecer pessoas que fizeram parte da minha história, que me ajudaram muito no começo da minha carreira.

Você foi treinada por dois treinadores que, se não são considerados os maiores técnicos de vôlei do Brasil, estão entre os melhores: Bernardinho e José Roberto Guimarães. Como foi trabalhar com eles?

Fui uma jogadora privilegiada, porque para mim são os dois melhores técnicos do mundo. Eles possuem características diferentes, seja na personalidade, na maneira como comandar a equipe, mas são dois treinadores onde o atleta evolui muito e aprende muito, e aprende a vencer, que acho que é esse o objetivo de todo atleta. Quem tem o privilégio de conhecer e trabalhar com eles sabe disso. São profissionais que temos muito respeito e que fiquei muito feliz por ter feito parte do trabalho deles.


A sua trajetória na seleção feminina começou praticamente na mesma época em que a equipe masculina ganhava o ouro nas Olimpíadas de Barcelona, em 1992. Essa conquista, de certa forma, acabou colocando maior pressão sobre as meninas, sendo que a tão sonhada medalha de ouro veio apenas 16 anos depois, em 2008?

Para a gente foi muito difícil, porque o vôlei feminino ainda não tinha alcançado um objetivo tão grande assim. E depois daquela vitória, o masculino veio numa crescente muito grande e nós tivemos que colher aos poucos, a cada ano, e sabendo que para conseguir ao chegar ao topo teríamos que conquistar algo tão grande quanto a que eles tiveram. Tivemos que "ralar" muito. Em 1992 tínhamos uma grande equipe também, mas não conseguimos e, depois, sempre batemos na trave. Mas os bronzes (em Atlanta-1996 e Sydney-2000) já eram um feito, até que veio o ouro em Pequim-2008. Foi a concretização de um grande trabalho.

E com relação boicote ao técnico Marco Aurélio Motta, foi um episódio que aconteceu entre a saída do Bernardinho e a chegada do José Roberto Guimarães. Como foi esse caso?

Depois das Olimpíadas de Sydney, a gente passou por uma renovação e foi o ano que o Bernardinho deixou a Seleção. O Marco Aurélio assumiu a seleção feminina, que já tinha uma estrutura bem montada e amadurecida. Acabou que ele queria outras jogadoras e não queria dar continuidade naquele trabalho que já estava encaminhado. Ele quis dar outra cara, com personalidade dele e tanto eu - que estava em um momento difícil pela perda do meu pai - quanto outras jogadoras - não estávamos satisfeitas com o que estava acontecendo e acabamos pedindo para não fazer parte. Se a gente não quer trabalhar com algo que não concordamos então é melhor não fazer parte do que estar ali no meio e ser infeliz. Foi o ano em que muitas se afastaram da seleção. (Na época, Marco Aurélio Motta afastou a londrinense Elisângela alegando indisciplina e além de Fofão, outras quatro titulares deixaram o time: Érika, Walewska, Raquel e Virna. No Campeonato Mundial de 2003, o Brasil acabou em sétimo lugar, o que acelerou a chegada de José Roberto Guimarães)

Você jogou na Seleção até 2008 e em clubes até 2015. Não são todas as atletas que conseguem jogar até os 45 anos em alto rendimento. Qual o seu segredo da longevidade da carreira?

Não sei se tem um segredo. Sempre digo que nunca planejei nada e nunca imaginaria na minha vida que iria parar de jogar com 45 anos. É uma coisa bem fora da realidade de um atleta. Mas o que eu fiz antes, sempre me cuidei muito, sempre tive muita responsabilidade, então acho q colhi muito as coisas q plantei. Além disso, vai chegando a uma certa idade em que a experiência te mostra "atalhos" e você vai sabendo como administrar e me poupar em momentos pontuais. O resto eu tinha que usar a cabeça e as mãos para continuar distribuindo as bolas e fazendo o jogo correr.

A Tiffany é a primeira atleta trans a atuar no voleibol brasileiro. Qual a sua opinião sobre isso? Você acredita que exista uma diferença grande de rendimento e desempenho para com as outras atletas?

Não cheguei a jogar com a Tiffany nem a conheço pessoalmente, mas acredito que não tem como você não falar que não existe diferença física porque existe. No Brasil, a gente nunca tinha vivido isso e a gente também não sabe como lidar com essa situação, até para os atletas foi uma coisa que pegou de surpresa e sempre digo que tudo o que é novidade nós devemos analisar o caso e esclarecer bem e não simplesmente colocar as coisas e tentar achar uma solução ou ver qual é a melhor forma. No caso da Tiffany, aconteceu dessa maneira onde não sabemos se é válido ou não. Para mim o que seria o certo é ter uma comissão médica com pessoas que entendam do assunto e resolva se é válido ou não. Tudo o que é polêmico gera dúvida e se você esclarece a situação e mostra que ela pode jogar com as mulheres sem sobressair no rendimento seria a melhor saída.

Depois que você parou de jogar, quais estão sendo as suas atividades?

Dois anos depois que eu parei eu fiquei preguiçosa. Foi difícil entrar no ritmo porque é uma rotina completamente diferente. Estou em uma fase de adaptação. Mas continuo fazendo as coisas que gosto de fazer. Não trabalho com o vôlei diretamente, como pessoas queriam, mas procuro estar sempre no meio, sempre sabendo como está a situação e procuro fazer os trabalhos que aparecem, como palestras e outros eventos. Estou sempre viajando e participando de algo. Ainda quero realizar projetos próprios. E ir me preparando. Tudo para mim agora é novidade mas ao mesmo tempo tenho alguns projetos que vou me esforçar para dar certo.

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