Desde a Segunda Guerra Mundial (1939-1945) as conquistas femininas são realidade em quase todas as sociedades. As mulheres obtiveram liberdade de opinião e de atitude, ganharam espaço no mercado de trabalho e hoje dividem com os maridos os deveres da casa e dos filhos. Mesmo assim, na política, a maioria dos cargos ainda é ocupada pelos homens.

Realidade que vem mudando nas últimas décadas, com um número cada vez maior de mulheres em cargos no Legislativo e também no Executivo. A FOLHA conversou com o sociólogo Marco Antonio Rossi sobre a ascensão feminina na política em países da Europa e agora na América Latina.

Como o senhor vê esse aumento no número de mulheres na política?
Esse fenômeno está muito relacionado à democratização da sociedade. E não é restrito à política, mas a todos os cargos de chefia ocupados por elas. As mulheres que chegaram ao poder político o fizeram porque tiveram grande participação em movimentos sociais. Essas conquistas estão muito ligadas ao mérito delas, à sua luta por emancipação, contra o preconceito e o machismo.

Essa ascensão não estaria ligada também à decepção com os governos masculinos, que predominam até hoje?
Sempre existe um percentual nesse sentido. A grande questão é pensar que ao longo do tempo o mundo tem sido excessivamente masculino e também com muita desigualdade, exploração, exclusão. E as mulheres têm surtido mais efeito por serem mais cuidadosas, mais voltadas para a questão de novos espaços, sabem ouvir mais. Elas chegam ao meio público construindo um ideal de comunidade, onde ela se coloca no lugar do excluído com mais sensibilidade, mais ternura.

Pelo menos no senso comum, a mulher tem uma imagem mais honesta do que os homens. Isso se mostra verdadeiro naquelas que chegam ao poder?
Não se pode dizer que exista um traço genético feminino que as torne incorruptíveis. Mas a mulher percebeu que o comportamento masculino errado a colocava em um papel subalterno, e se ela quer um mundo diferente, precisa agir de forma diferente. Elas sabem que um dos maiores problemas é a currupção. Mas isso não significa que não existam mulheres corruptas, porque algumas entram nesse jogo.

Observando os governos femininos, é possível dizer que na prática elas têm realmente se mostrado uma opção diferente de governança?
Acho que sim, principalmente no foco das políticas públicas. Elas se mostram mais sensíveis às questões sociais. Em geral são governos com maiores investimentos em saúde, educação, renda mínima. E essa prática modifica a vida das pessoas, principalmente daquelas com menos recursos. O homem pensa mais no desenvolvimento econômico, aumento do parque industrial, de investimentos, de parcerias, em coisas macroeconômicas. Mas nem sempre pensa em como transformar isso tudo em comida, emprego, moradia.

Mas a macroeconomia é algo importante, principalmente na era da globalização. O ideal é que tivéssemos governos mais mesclados entre homens e mulheres?
Sim, os fundamentos macroeconômicos são fundamentais e não podemos escapar deles. A questão é que a mulher agrega valor a isso. Ela pensa em todas as questões macro, mas se preocupa em como distribuir essa riqueza, permitindo maior acessibilidade social, maior inclusão. A mulher consegue criar essa governança mista: um olhar para a economia global e outro para as questões urgentes e locais.

Mas uma vez que as mulheres estão cada vez mais adquirindo comportamentos masculinos, não existe o risco de elas passarem também a ter ''governos masculinos''?
Se isso acontecer teremos dois problemas culturais: um porque as mulheres iriam repetir os mesmos erros deles, mantendo tudo igual; e outro porque o mundo antes ocupado por ela ficaria pior. Mas não acredito que essa masculinização aconteça.

O Brasil vive pela primeira vez a possibilidade real de uma mulher chegar ao poder máximo do país. Estamos prontos para uma presidenta?
Acredito que o fato de ser mulher nem colabore nem prejudique uma possível eleição da Dilma (Roussef, ministra da Casa Civil). Se ela ganhasse ou perdesse, seria mais por seu trabalho, sua história na política.

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