Lugar de mulher é no fogão. A piadinha machista deixou de ter sentido há muito tempo, mais precisamente a partir da década de 70, quando elas trocaram as tarefas domésticas pela acirrada disputa por uma vaga no mercado de trabalho, passando a fazer parte da população economicamente ativa brasileira.
Segundo dados da Fundação Getúlio Vargas (FGV), houve um acréscimo de 25 milhões de trabalhadoras no país entre 1976 e 2002. Nos anos 70, 18 em cada cem mulheres trabalhavam, enquanto na primeira década do século XXI metade delas estão em atividade.
Não só em atividade como também roubando o espaço masculino nas empresas. Números do Ministério do Trabalho revelam que no ano passado 286 mil mulheres com curso superior conseguiram emprego, contra 173 mil homens com a mesma formação. Diante dessa vantagem, elas já ocupam mais de 40% dos empregos com carteira assinada no Brasil.
Algumas destas mulheres encararam até o desafio de trabalhar em profissões tradicionalmente masculinas, como a motorista de caminhão Marilene Oliveira Lima, 55 anos de idade e quase 30 de estrada. Foi a situação financeira que obrigou a então jovem de 24 anos a procurar emprego em uma transportadora e ganhar a vida viajando pelo país.
‘‘Já conheci o Brasil inteiro. Minha viagem mais longa foi até Roraima, e tinha lugar que eu não podia parar porque era perigoso ser assaltada, perder a carga. Precisa ter muita coragem para enfrentar a estrada’’, conta a caminhoneira, que garante ser respeitada pelos colegas de trabalho. ‘‘No começo era uma supresa para eles ver uma mulher pegando no pesado. Ficavam admirados. Mas sempre me trataram com muito respeito’’.
Marilene se orgulha de ter se envolvido em apenas um acidente nos quase 30 anos em que trabalha como caminhoneira. Foi em Rondônia, no meio da Floresta Amazônica, quando o caminhão carregado de madeira tombou e deixou a motorista presa em um buraco. ‘‘Sorte que não teve ferimento nenhum, porque naquela região jamais apareceria um bombeiro para socorrer’’, recorda Marilene, uma das 20 mil mulheres no meio de um milhão de caminhoneiros que trafegam pelo país.
24 horas
Quem também invadiu um território de maioria masculina foi a motorista de táxi Keity Cristiane da Rocha, 30 anos, que começou na profissão há dois anos e meio por acaso. ‘‘Eu era representante de vendas, e minha mãe trocou o carro da família por um táxi para meu irmão trabalhar. Quando eu estava de folga, ficava com o táxi para ajudá-lo. Gostei, vi que dava resultado e decidi assumir a profissão.’’
Para Keity, o fato de ser minoria entre os taxistas traz muito mais vantagens do que desvantagens, principalmente na hora de conquistar clientes. ‘‘As mulheres geralmente preferem que a motorista seja outra mulher. Acham mais seguro, sem falar que o carro está sempre mais cheiroso, limpinho. Entre os homens, alguns ainda carregam preconceito. Vêem que é mulher e acham que vão chegar atrasado no compromisso, mas depois percebem que não nada a ver’’, pondera.
Com dois filhos para criar, a taxista conta com a ajuda da família para fazer o papel de mãe e encarar o turno de 24 horas pelas ruas de Londrina. ‘‘Minha mãe cuida das crianças nas noites em que eu estou trabalhando. Mas acho que acabo passando mais tempo com meus filhos do que se estivesse em um emprego de oito horas por dia’’, analisa a taxista, que não pensa em deixar a profissão tão cedo. ‘‘É apaixonante ser taxista. Você trabalha até como psicólogo das pessoas, dando conselhos, acalmando quem está nervoso. Dá para fazer muitos amigos’’.

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