A julgar pelo fato de que, no Brasil, as mulheres só conquistaram o direito de abrir conta em banco a partir de 1962, é um grande alento o panorama apresentado por reportagem da FOLHA, na edição desta segunda-feira (6), de que o número de brasileiras que investem na Bolsa de Valores mais que dobrou em um ano.

De acordo com dados da B3, em agosto de 2019 eram 295.514 mulheres registradas na Bolsa. Em 2020, elas somaram 742.719 cadastros, apresentando um crescimento de 151%. Como a participação dos homens também cresceu, a fatia feminina não passou dos 25% do total de investidores, dois pontos percentuais a mais do que o registrado há cinco anos.

A representatividade de um quarto do todo ainda é baixa, mas as mulheres dão mostra que estão dispostas a buscar mais espaço no mercado. Uma prova disso é que o maior canal de finanças do mundo no YouTube é comandado por uma mulher. A trajetória e as dicas da jornalista da área de finanças Nathalia Arcuri tem inspirado muitas mulheres, como a farmacêutica bioquímica Rosiele Damião do Nascimento, de Londrina.

O conhecimento dos conceitos básicos do mercado financeiro, porém, ainda é realidade distante para a maioria dos brasileiros e brasileiras. Em outra reportagem publicada pela FOLHA, “Falta de educação financeira prende brasileiros à poupança” (11/8/2020), fica nítido que mais da metade dos brasileiros não consegue ao menos poupar dinheiro. Dos que têm aplicações, mais de 80% ainda estão presos às cadernetas, que se desvalorizam cada vez mais com a taxa Selic a 2%.

Além da garantia de direitos básicos de cidadania, bem-estar e dignidade humana, a independência financeira é fator primordial para as mulheres. Muitas delas que sofrem com a violência doméstica acabam a se sujeitar às mais diversas formas de agressão pelo fato cruel de não terem como se sustentar, ou sustentar os filhos.

Seja nos casos extremos de vítimas de crimes enquadrados pela lei Maria da Penha, ou de mulheres que ainda são discriminadas no mercado de trabalho, chegando a ganhar até 50% menos para cumprir a mesma função de um homem, a educação financeira pode cumprir um importante papel para reduzir essas desigualdades. Mais um problema que esbarra no gargalo da educação, mas que pode ser saneado com incentivo e políticas públicas objetivas.

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