Aquela música que fala que ‘‘Amélia era mulher de verdade porque não tinha vaidade’’ é muito equivocada mas fala de algo razoável: é necessário ter amor próprio para buscar a evolução.
Chiquinha Gonzaga nos deixou uma herança de música e exemplo de liberdade. Ainda na época da escravatura legal do negro, a mulher era escrava do pai, do marido e das opiniões alheias. Ela ousou romper os grilhões pagando com a perda da guarda dos próprios filhos.
Cem anos depois, as coisas mudaram - mas nem tanto.
Da mesma forma que rimos e nos revoltamos com os costumes daquela época, nossos sucessores acharão extremamente ridículo termos um dia específico para que a humanidade lembre que metade de seus habitantes - os femininos - também tem direitos.
Mulheres hoje podem trabalhar e estudar, mas em muitos locais até isso é vedado.
As mulheres exercem direito sobre seus corpos? Apenas algumas, pois ainda se extirpam parte de suas genitálias ou as escravizam, inclusive e principalmente de forma sexual.
A prostituição atingiu níveis diferentes, onde a paga são os ‘‘cachês’’ e nem a inocência da criança é poupada numa violência precoce.
No Brasil, a Constituição lhes dá direitos iguais dentro da família. Mas a ‘‘cultura’’ secular nem sempre viabiliza o exercício desta garantia por todas. Como estamos distantes de um mundo ideal!
No Dia da Mulher, que transcorreu ontem, multiplicaram-se festas e homenagens, mas este dia é prova inconteste do atraso espiritual da humanidade.
Claro. Se até a mais famosa advogada do Planeta, Hillary, é humilhada mundialmente pelas ‘‘relações impróprias’’ do marido, como aceitarmos a tese da igualdade dentro da família? Fosse ela a ter um estagiário apaixonado, como seria o final da história? A ex-ministra Zélia Cardoso pode responder. Nenhum homem conseguiria superar o trauma da traição de forma estóica.
Continuamos todos a fazer uma leitura equivocada da história da serpente e da maçã: naquele episódio, na verdade, os seres humanos trocaram sua domesticidade animal pelo livre arbítrio, pagando o preço sempre alto da liberdade.
É, sem dúvida alguma, dentro do âmbito do comportamento e da família que, universalmente, mulheres de todas as classes sociais sofrem um verdadeiro estigma.
Restam-nos consolos importantes, especialmente nas conquistas morais e intelectuais (não mais se fala que mulher não tem alma, por exemplo). O aumento vertiginoso delas em todos os campos demonstra que, afinal, o peso do cérebro não equivale à inteligência menor, e temos mulheres de verdade que nos envaidecem a todas.
Em nível local, Emília Belinati, como vice-governadora, e Regina Afonso Portes, como a primeira desembargadora do Estado do Paraná engrossam as fileiras das tantas outras pioneiras desde Chiquinha Gongaza, que entoam a esperança de um mundo onde todos, independentemente de características biológicas, sejam apenas seres humanos vivenciando os acordes da inigualável partitura que é a existência terrena.
- MARGARETH ZANARDINI é advogada e coordenadora da Comissão de Justiça do Conselho Estadual da Mulher do Paraná em Curitiba

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