Com gestos corajosos e desesperados, inúmeras vezes as mulheres dos policiais militares têm agido em nome de seus maridos, cujo risco de represália pelo sistema de segurança é evidente, mesmo sendo eles traídos pelas promessas, até assinadas, e nunca cumpridas pelo atual governo.
A corporação sofre as consequências do resultado das urnas, dos votos que garantiram, eleitoralmente, a continuidade de um modelo político incompetente, corrupto e mentiroso. Prova disso tem sido a ultrajante e desnecessária venda do nosso rico patrimônio público, construído com a inteligência, o suor e os impostos de todos os paranaenses. Contudo, o pior pecado cometido não é capital, mas moral.
Os atuais dirigentes quebraram a palavra falada e escrita à sociedade e aos funcionários públicos, assim como desonraram a assinatura expressa e o compromisso empenhado à classe política. Tal valor – cumprir a palavra – que simbolicamente chamamos ‘‘no fio do bigode’’, é de fato um dos traços que mais caracterizam os homens de bem.
A face perversa e covarde do exercício de poder sobre os policiais militares é pra lá de dantesca: tenta esconder a realidade da violência, gerada pela falta de segurança em Curitiba e sua Região Metropolitana, a qual vem na mesma esteira da luta por melhores condições de trabalho e dignidade profissional.
Para manter o marketing da cidade com a melhor qualidade de vida, num gesto dramático para que a criatura não se volte contra o ‘‘criador’’, o governo manipula dados, modifica parâmetros de pesquisas e se dá ao luxo de varrer para baixo dos tapetes os dados estarrecedores no aumento do banditismo.
É inegável que a escalada da violência é diretamente proporcional ao crescimento do empobrecimento do trabalhador paranaense e brasileiro. Pesquisa da Fundação Getúlio Vargas, aproveitando os dados do IBGE (1996-99), aponta a Região Metropolitana de Curitiba com o maior crescimento da pobreza – 16% – ao compararmos com a taxa das regiões metropolitanas de São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Porto Alegre e Recife.
‘‘Mente ociosa, oficina do diabo.’’ O dito popular se associa ao avanço da criminalidade. Eis a constatação na RM de Curitiba: em 1999, houve 6.073 crimes de furto qualificado e em 2000, 10.258, com crescimento de 69,92%; roubo: 4.861 e 9.451 (+94,43%); furto: 8.634 e 11.152 (+29,16%); sequestro relâmpago: 4 e 13 (+225%); posse e uso de drogas: 503 e 889 (+76,74%); ocorrências contra mulher: 4.617 e 7.952 (+72,23%). A fonte são os Relatórios Mensais do GAP/DPC - SSP-PR.
Os números aterrorizam a sociedade e assustam os policiais. Ao interpretarmos tais sintomas sociais, resta-nos tão-somente reconhecer a legitimidade do movimento reivindicatório do setor de segurança pública civil e militar nos Estados brasileiros.
Ao lutarem por melhores condições de trabalho, de salário e de proteção familiar, a corporação revela quanto é importante, para a proteção individual e coletiva, a existência da força coercitiva.
Ao tombarem mortos em quantidades cada vez maiores, no combate desigual das ruas com bandidos cada vez mais organizados, armados e destemidos, buscam abrigo econômico para os dependentes que ficam.
O município de Pinhais (RM de Curitiba) tem uma população de 102 mil habitantes e conta com efetivo de quatro policiais e duas viaturas para fazer a garantia individual dos cidadãos, revezando-se em turnos de 12/24 horas. Como pode?
A sociedade, que sempre se preocupou com o conforto térmico, a luminosidade e os ambientes arejados, ao idealizar a casa de seus sonhos, busca na ‘‘engenharia do medo’’ o abrigo para, como o avestruz, enterrar-se em alienação. A sensação de segurança está longe de ser real.
Enquanto estiver crescendo o número de excluídos, não haverá muro alto ou aparatos de segurança que consigam manter o cidadão protegido. E tampouco, os nossos policiais voltarão a caber dignamente dentro das próprias calças.
- RASCA RODRIGUES, de Curitiba, é engenheiro agrônomo e diretor-financeiro do Sindicato dos Engenheiros do Paraná (Senge-PR) e diretor-executivo da Federação de Sindicatos de Engenheiros do Brasil (Fisenge)
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