Elza Correia
Na passagem do Dia Internacional da Mulher, socializamos às mulheres londrinenses a reflexão do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher, do qual fazemos parte, representando o Estado do Paraná, publicado na revista ‘‘Memória’’ por Rosiska Darcy de Oliveira, ex-presidenta desse Conselho.
Entendemos que esta reflexão venha de encontro a todas nós que na verdade estamos ajudando a construir uma nova ordem social sem hierarquias, onde não haja subalternidade da mulher-cidadã, um novo espaço fraterno, solidário e justo, que reflita efetivamente como deve ser o que chamamos democracia.
‘‘A Conferência que vivemos em Pequim garantiu às mulheres do Planeta a ressonância imediata das nações, de onde brotam a guerra e a paz, a prosperidade e a miséria, a solidariedade ou a indiferença – em uma palavra, os projetos de civilização. Não conquistamos apenas direitos, assumimos responsabilidades.
A voz feminina passa, hoje, da ambição de ser ouvida no espaço público, a uma outra, bem mais subversiva, a de formular outro projeto civilizatório. A emergência do feminino como lugar a partir do qual pensamos o mundo, a solidariedade e a cultura e não apenas um sintoma do nosso tempo, como também, principalmente, o desejo consciente das mulheres que nele depositam sua contribuição ao futuro.
A todos nós, homens e mulheres, se oferece a chance histórica, única, de construirmos uma democracia que mereça esse nome, porque capaz de exprimir os interesses, as necessidades, valores e aportes da mulher. A herança de Pequim já seria incomensurável se impregnasse o mundo com essa definição de democracia em que os direitos de cidadania para as mulheres são sinais vitais.
No mundo contemporâneo, democracia é, cada vez mais, sinônimo de cidadania, ou seja, de um contexto no qual a voz, as demandas e os direitos dos mais variados grupos sociais se fazem ouvir no espaço público. Assim entendida, a democracia em permanente construção tira sua força da capacidade de permitir e favorecer o livre debate das idéias, expressão de pontos de vista distintos, o entrechoque de interesses e reivindicações, por vezes contraditórios e divergentes.
No limiar do século XXI, a democracia vive e nutre-se do conflito, é o espaço para negociação e construção de consensos que tenderão a ser parciais e efêmeros na medida mesma em que novas demandas emergem da dinâmica social. Seu único consenso, irredutível e permanente, diz respeito à sua própria natureza no campo argumentativo e espaço de debate onde se exprimem e dialogam a liberdade e a diversidade.
É sobre este pano de fundo de progressiva radicalização da democracia e de afirmação de uma humanidade que busca a si mesma, que busca seu melhor, que esta inclusão da metade da população no esforço coletivo de definir, a cada instante, os parâmetros da melhor convivência humana, representa um salto qualitativo na correção de um ponto cego, que, até então, comprometia e, por vezes, invalidava o discurso e a prática da democracia.
As primeiras lutas pela igualdade pisaram exatamente nesta armadilha. Construíram-se fazendo abstração de um vício de origem: o de que a cultura estruturou-se atribuindo às mulheres um lugar à margem.
Hoje, na pauta de reivindicação das mulheres pelo reconhecimento de sua humanidade está a recusa em endossar o feminino como o avesso do masculino. Quebrou-se o mecanismo mais confortável do pensamento que define alguma coisa pelo seu contrário, mudando o sinal, invertendo características. A desconstrução dessas convicções que serviram de fundamento à convivência hierarquizada entre os sexos é o que vem permitindo a emergência do feminino com fator de democratização da sociedade e de dinamização da cultura. O que está em jogo é o reconhecimento de uma igualdade inédita entre os sexos, a aceitação das diferenças sem hierarquia e sem mimetismo.
Compactuando com este pensar, que, aliás, todas nós ajudamos a construir, conclamo as mulheres londrinenses a não se isentarem da responsabilidade de interferir neste processo que ainda hoje se apresenta absolutamente alheio ao que sonham e querem para si mesmas.
Mais do que nunca, devemos almejar a participação no poder, não no poder corrompido, no poder do tráfico de influências e interesses, no poder para beneficiar interesses alheios aos direitos da população, mas, sim, no poder livre das máculas da corrupção. As mulheres precisam de poder para implementar uma nova ordem social revolucionária, limpa, onde a ética seja o norte e a verdade e a justiça a bússola indispensável para a chegada ao porto seguro da democracia que desejamos e merecemos.
Busquemos em nossa cidade espaços de poder onde possamos nos incluir. Seja em partidos políticos, seja nos movimentos comunitários, nos sindicatos, ou qualquer outro espaço, onde possamos ajudar na tomada de decisões que melhorem a vida de homens e mulheres. Este será um grande exercício que nos levará a assumir cada vez mais, inclusive os espaços parlamentares onde a presença feminina ainda se faz minguada, apesar de tão importante. Haja vista que na história do Legislativo londrinense tivemos, até agora, apenas quatro vereadoras que nos antecederam: Armanda Lopes, Vera Manela, Iracema Mangoni e Lygia Pupatto, parlamentares que deixaram sua importante contribuição na história da nossa cidade, em nome das quais rendo minhas homenagens a todas as mulheres londrinenses.

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