Tomou posse ontem a primeira mulher presidente do Brasil. Dilma Vana Rousseff, 63 anos, mineira e filha do advogado búlgaro Pedro Rousseff, naturalizado brasileiro, e da dona de casa Dilma Jane Silva, é formada em economia e disputou sua primeira eleição já concorrendo ao cargo máximo do Executivo.
  Iniciou-se na militância ainda jovem, após o Golpe Militar de 1964 e integrou organizações que defendiam a luta armada contra o regime ditatorial, como o Comando de Libertação Nacional (Colina) e a Vanguarda Armada Revolucionária Palmares (VAR-Palmares). Condenada por subversão, ficou presa entre 1970 e 1972, quando foi torturada.
  Já no Rio Grande do Sul, exerceu o cargo de secretária municipal da Fazenda de Porto Alegre de 1985 a 1988. Foi secretária estadual de Minas e Energia, de 1999 a 2002. Em 2002, assumiu o Ministério de Minas e Energia, cargo que ocupou até 2005, quando foi nomeada ministra-chefe da Casa Civil. Conhecida por sua personalidade forte, já foi acusada de fazer assessores chorarem, além de provocar a demissão de um ministro.
  Em abril de 2009 anunciou ter câncer linfático. Em setembro, após meses de tratamento quimioterápico anunciou que tinha superado a doença, o que foi confirmado pelos médicos.
  Em 31 de outubro de 2010 foi eleita presidente com 55.752.529 votos, 56,05% do total de votos válidos. No seu pronunciamento após a confirmação da vitória, afirmou que irá ‘‘fazer um governo comprometido com a erradicação da miséria e dar oportunidades para todos os brasileiros e brasileiras.’’ O fato de ser a primeira mulher a conquistar a Presidência da República gera, sem dúvidas, especulações, mesmo sendo a 11ª a atingir tal feito na América Latina.
  Para Leonardo Barreto, cientista político e pesquisador do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília (UnB), a eleição de Dilma é um momento emblemático, pela recente participação da mulher na política brasileira, mas pode lhe gerar alguns dissabores. ‘‘Caso sua administração fracasse, certamente muitos machistas encontrarão um bom argumento para desfilar seu preconceito’’, alerta.
  O que representa para o Brasil o fato de termos uma mulher no cargo máximo do Executivo pela primeira vez?
  Ter uma mulher chefiando o Executivo representa muito. Especialmente se considerarmos que a mulher participa da política há menos de 80 anos! Certamente, é um dos momentos mais emblemáticos da jovem democracia brasileira.
  Poderíamos dizer
que é uma vitória sobre
o machismo, sobre o preconceito?
  A eleição de Dilma é uma vitória sobre o machismo. Mas o sucesso ou não da presidenta será fundamental para dizer a extensão dessa vitória. Caso sua administração fracasse, certamente muitos machistas encontrarão um bom argumento para desfilar seu preconceito. Por isso, é importante que sua administração seja bem sucedida.
  O senhor acredita que ser mulher deve abrir portas para o País no exterior ou pode ser uma barreira em determinadas situações para a presidente?
  Acho que ter uma mulher na presidência é um cartão de visitas muito importante. Soa como uma mensagem para os países: ‘‘No Brasil, temos uma sociedade amadurecida e em evolução’’.
  Uma das críticas em relação a Dilma Rousseff é sobre sua suposta falta de carisma, que é a marca do ex-presidente Lula.
Por outro lado, ela tem formação superior e experiência em cargos
de alto escalão, como ministérios. O senhor acredita que ela vai desfrutar de mais credibilidade que o Lula?
  Provavelmente, não. Lula é uma rara exceço. Antes dele, só Juscelino Kubitschek havia deixado o governo com bom índice de aprovação. Mas ela não precisa de carisma. Precisa de resultados. Essa foi a chave da sua campanha eleitoral e deve ser a tônica da sua administração.
  A participação na luta armada durante a ditadura poderá sem um empecilho em negociações internacionais ou para a diplomacia do governo? Como essa experiência da presidente será recebida pela comunidade internacional?
  Não acredito que vá atrapalhar. Os países são muito pragmáticos em
suas relações. Ao olhar para Dilma, eles não verão a guerrilheira, mas a chefe de uma das maiores economias do mundo.
No final das contas, é isso que vale.
  Dilma é considerada uma gestora exigente.
O senhor acredita que essa é uma característica que vai ajudar a tornar o governo mais eficiente ou dificultar as ações por causa da burocracia no setor público?
  Depende. Acredito que Dilma tem tudo para fazer um governo reformista (uma agenda abandonada por Lula). Governos dessa natureza sempre possuem mais dificuldades para manter bons níveis de popularidade. Por isso, a presidente tem que manter um bom ritmo de desenvolvimento econômico e social para conseguir manter um nível de legitimidade ótimo que lhe permita enfrentar a missão espinhosa de exigir reformas que tornem o Estado mais eficiente.

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