Mulher mais ou
menos grávida?

Gaudêncio Torquato
A corrupção é um tumor que está sendo lancetado em muitas regiões do País. Parece, até, que uma onda ética se avoluma, causando indignação, clamando por punição e mobilizando entidades. A pressão é maior diante de situações de acomodação. Em São Paulo, por exemplo, a decisão de arquivar a denúncia feita pela OAB contra Celso Pitta, tomada por uma comissão nomeada pela Câmara de Vereadores, está provocando grande revolta. Significa que a população está atenta aos fatos políticos. A mídia está funcionando como tuba de ressonância, as emissoras de rádio fazem campanhas e as revistas elegem o tema como matéria de capa.
O combate à corrupção, porém, não deve se restringir ao âmbito político. O sistema corruptivo é mais abrangente. Tem raízes históricas e culturais, advindo do clientelismo dos primórdios coloniais, a partir da concessão das capitanias hereditárias e das sesmarias. A corrupção persistiu com os barões do Império, continuou com a oligarquia republicana, encontrando os primeiros obstáculos por ocasião do primeiro Governo de Getúlio Vargas, que criou o Dasp, uma espécie de departamento a pôr ordem na administração. Mas a Constituição de 46 reabriu as janelas clientelistas e cartoriais. Mais tarde, com o advento da ditadura militar, a chamada Doutrina de Segurança Nacional funcionou como uma espécie de capa para encobrir formas variadas de privilégios, favorecimentos e clientelismo.
Nas esferas municipal, estadual e federal, um poder invisível se instalou, juntando pequenos e médios tecnocratas que se mancomunam com fornecedores de serviços e empresários interessados em aumentar seus impérios e fortunas. Portanto, a corrupção atua em diversas frentes. Os transgressores não são apenas os agentes corruptores. Abrangem os corrompidos. E a corrupção tem muito a ver com a cultura da transgressão que invade todos os poros da vida cotidiana. O sujeito que passa a gorjeta para o guarda de trânsito, o ajudante de cartório que adianta um processo, o transeunte que atravessa a rua em lugar impróprio, as pessoas que usam as passarelas de bicicleta ou os atletas que invadem as pistas daquele veículo – essas coisitas cotidianas fazem parte da cultura da transgressão e, consequentemente, alimentam os poços da corrupção.
Os sistemas mais corrompidos são o político e o administrativo e a explicação está no fato de que o espaço público passou a ser administrado pelos representantes e dirigentes como espaço privado. A política torna-se, para muitos, um empreendimento negocial. Mas o próprio sistema normativo, legal, oferece, também, brechas para a corrupção. Basta ver a relação de juízes comprometidos com esquemas de favorecimentos.
Até os meios de comunicação contribuem para a consolidação de uma cultura de transgressão. É claro que há de se elogiar a postura da mídia com suas denúncias, a pressão sobre o poder político, as campanhas para apuração dos escândalos. Mas a imprensa, em muitos casos, prejulga, toma partido, condena um denunciado antes mesmo de seu julgamento pela Justiça. E a criação de estados emocionais prejudica os acusados, porque a opinião pública, aí incluídos os juízes, acabará fazendo sua condenação com base nas notícias veiculadas. Ou seja, há uma transgressão da lei, porque ninguém poderá ser considerado culpado antes de passar pelo crivo da Justiça. O sistema midiático também tem culpa em cartório.
Por último, é oportuno lembrar que a cultura da transgressão, mãe da corrupção, começa na casa de cada um. É a desobediência familiar, são os pecadilhos cometidos com as bençãos de pais e mães, com a complacência dos avós, que motivam crianças e adolescentes a ingressar na cultura da transgressão. Ou seja, tudo começa em casa. O grande motor é o educacional-cultural. E não adianta querer medir desonestidade pelo tamanho da conta. Ulysses Guimarães costumava dizer que uma pessoa 99% honesta é 100% desonesta, porque o conceito de honestidade não permite proporção. É como gravidez. Não existe mulher mais ou menos grávida.
- GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista, professor universitário em São Paulo e consultor político
E-mail: [email protected]
www.vereador2000.com.br

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