O Brasil tem mulheres incríveis na sua história, de Chica da Silva a Anita Garibaldi; de Chiquinha Gonzaga a Tarsila do Amaral; de Bertha Lutz a Zilda Arns; de Carmem Miranda a Ana Cristina Cesar. Algumas são reconhecidas como celebridades, artistas, militantes, feministas ou poetas. Outras são menos conhecidas, mas têm uma história de superação, resistência e brilho como Enedina Marques Alves, paranaense de Curitiba e primeira mulher negra do Brasil se formar em Engenharia Civil nos anos 1940. Ou Lindalva Campos, de Londrina, segunda mulher brasileira a pilotar um avião.

Muitas mulheres ainda estão entrincheiradas em atividades cotidianas essenciais, e permanecem quase anônimas como professoras, enfermeiras, médicas, agrônomas, floristas, artesãs, jornalistas, bombeiras, mecânicas, padeiras, químicas,arquitetas, agricultoras. Desde a revolução industrial, elas estão em toda parte – da fundição aos serviços de limpeza - e ainda formam um contingente sem o qual a casa não anda, a panela não ferve e o arroz desanda.

Quando se fala em luta feminista, alguns torcem o nariz. O preconceito ainda é maior que todo esse universo feminino que se rearranja para participar de lutas que não são pequenas, incluindo o dentro e o fora, a profissão e os filhos, com pouca ou nenhuma concessão de uma sociedade ainda moldada segundo o princípio da desigualdade dos sexos.

Em pleno século 21, as mulheres ainda recebem salários menores, sofrem assédio sexual, são motivo de zombaria quando se declaram fe-mi-nis-tas, este adjetivo tão perturbador que foi enfiado num rótulo usado como “ofensa” quando querem desdenhar das mulheres que desafiam costumes, subvertem hierarquias, lutam com garras e dentes, ferem com tacape imaginário o machismo que as mata com armas de fogo, numa triste relação de uma mulher morta a cada 7 horas por fe-mi-ni-cí-dio, segundo as estatísticas nacionais.

A luta das Anitas, Berthas, Chiquinhas e Anas foi grande e ainda é.

Seria um desperdício de competência e talento se a baiana Maria Quitéria nunca tivesse ido à luta no século 18; se a cearense Maria Tomásia Figueira Lima não tivesse fundado uma sociedade feminista no século 19; se a paulista Tarsila do Amaral não tivesse feito a antropofagia da pintura no início do século 20.

Seria um desperdício de valor e coragem se as agricultoras nunca tivessem semeado feijão e arroz; se as parteiras nunca tivessem ajudado meninos, dados como mortos, a nascer; se as meninas nunca tivessem atravessado rios e brejos para estudarem em escolas rurais saindo de casa às 5 da manhã.

No Brasil, há sempre uma mulher fazendo pão e cortando cana; há sempre uma mulher ganhando prêmios e resolvendo equações; há sempre uma mulher dançando ou pesquisando estrelas. Um emaranhado de competências que não justifica diferenças, desigualdades, mortes pela força bruta. As brasileiras, hoje, sobrevivem aos ataques, respondem a ofensas, superam humilhações, combatem diferenças, constroem o País a cada manhã, reinaugurando a identidade feminina para o século 21.

Nesta edição da FOLHA, as mulheres são a nota dissonante de um mundo machista. Fomos encontrá-las nas comunidades, nos palcos, na imprensa e na vida construindo um País melhor que as tristes estatísticas de preconceito e violência.

Neste 8 de março, Feliz Dia da Mulher com competência e consciência!

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