Rubem Azevedo Lima
Tantas coisas estranhas aconteceram e acontecem sob o governo do presidente Fernando Henrique Cardoso que até Deus duvida. Vale recordar algumas delas, mais emblemáticas por suas circunstâncias e consequências.
A imprensa publicou, há tempos, um dossiê, considerado falso, sobre a existência, no paraíso fiscal das ilhas Cayman, de conta bancária do ex-ministro das Comunicações Sérgio Motta, então falecido, supostamente partilhada por personalidades do governo, entre as quais FHC. O presidente pediu a apuração do fato e resolveu processar os suspeitos da falsificação, a conselho de seu brain-storming de amigos.
Essas palavras significam um tipo de grupo que busca solução de problemas por meio do debate de idéias e apresenta suas conclusões a quem de direito. Brain é cérebro: storming, tempestuoso. Em cumprimento à sugestão, a Polícia Federal foi a Cayman e ali não teria chegado a resultados conclusivos sobre a existência da tal conta.
A polícia americana prendeu, em Miami, dois brasileiros suspeitos de lavagem de dinheiro do narcotráfico e que seriam também os autores do dossiê tido como apócrifo sobre a conta misteriosa. O certo é que as autoridades judiciais dos EUA investigam as atividades desses brasileiros e têm tudo para resolver, afinal, o que até agora não ficou definido: a falsidade ou não do dossiê. Evidentemente, só a solução desse problema pode reabrir ou encerrar, em definitivo, o caso Cayman, com suas escabrosas e aborrecidas dúvidas.
Atribui-se ainda a conselhos do brain-storming presidencial a solução dada por FHC à briga entre Antonio Carlos Magalhães, presidente do Senado, e o líder do PMDB nessa casa, senador Jader Barbalho. FHC se limitou a dizer, então, que ‘‘não era juiz de briga’’. Mas as televisões mostraram o riso com que o presidente sublinhou tais palavras, como se o confronto entre correligionários, pelo ridículo, não comportasse nenhuma consideração política elevada. Sua reação, porém, chocou não só os dois contendores, mas grande parte do Congresso.
Deu-se, depois, a demissão do ministro da Justiça, José Carlos Dias, por divergências com um subalterno da Secretaria Antidrogas, ligado ao general Alberto Cardoso, poderoso ministro do gabinete de Segurança. O subalterno – que, no dia seguinte, aceitou deixar o cargo – divulgara plano de ataque ao narcotráfico na Amazônia, prejudicando sua execução e irritando o ex-ministro. No último ato dessa peça de intriga palaciana, Dias acusou FHC de aliar-se ‘‘aos reacionários e à direita’’.
Tais fatos podem, obviamente, criar problemas para FHC. Por isso, e pelo que já produziu de ruim para os brasileiros, o brain-storming presidencial dificilmente seria aprovado num bom encefalograma. Trata-se de gente que ajuda FHC a elevar o número de situações mal resolvidas na política oficial. E que, nas hesitações de rotina entre duas posições antagônicas, no caso de altos interesses em jogo, quando não se define logo pela parte mais forte, não apóia uma nem outra, mas só o ‘‘muito pelo contrário’’. É a estratégia de rolar dificuldades com a barriga, deixando-as em suspenso, o que costuma levar qualquer país a crises de saídas problemáticas.

mockup