Muito cedo para ser enfim
Quem de nós não gostaria de uma outra chance entremeio as intrigas de bem viver?
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 07 de setembro de 2026
Quem de nós não gostaria de uma outra chance entremeio as intrigas de bem viver?
João Gomes Filho 
Sou um dançarino dos bons (creiam-me), em que pese o descompromisso rítmico, métrico, formal, compassivo e levítico – afinal, danço a minha história embebida em momentos e circunstâncias que a querença de bem viver ainda me concede. Foi assim, com essa graça própria, que o incômodo dos hermanos com minha dança me peou.
As 23 províncias argentinas me proibiram de bailar o tango, só restando um ou outro sítio na cidade autônoma de Buenos Aires que ainda me aceitam dançar, na conta de minha paixão latina – caboclo que nasci...
Assim, sem poder bailar, sigo prisioneiro da beleza dos movimentos que a dança concede. Casei (não por acaso) com uma bailarina que venho ancorando longe dos palcos dourados da vida, na conta de minha tristeza passional-coreográfica, muito em face de meu exílio com as coisas que vagueiam entre as metáforas de desespero nos campos do Senhor...
Queria ter sido e feito melhor muita coisa – notadamente aquelas que me escapam entremeio a paixão que viver reclama.
Noves fora, quem me viu jogar futebol na juventude escapista de anteontem lamenta o advogado que me tornei, ao argumento de quanto o mundo e a fantasia perderam – não sei se com a constituição do advogado em si ou na teima da memória rediviva dos anos que a vida roubou.
Quem de nós não gostaria de uma outra chance entremeio as intrigas de bem viver? Penso que cada um daria um pedaço dos dias que ainda estão por vir, apenas para reviver e consertar alguma coisa que o tempo assistiu quebrar.
Sabe aquela fala enviesada e ríspida lançada na face de um amor? Aquele momento sem retorno em que o sangue nos olhos do vampiro abraça nossa calma e dispara o cortisol da vida? Invariavelmente alguém que amamos se machuca.
Venho envelhecendo (61 e contando) com muita lembrança viva de momentos esquecíveis, onde magoei por palavras mal colocadas a quem não gostaria de ter machucado jamais. Quem não?
Sempre acreditei que o vaso da vida, por acomodar a flor do existir, não reagiria a cola de bem querer que o arrependimento sincero nos acena em direção a angústia represada.
Mas quem sou eu para acreditar? É a vida quem diz o jogo a se jogar – a nós cabe não sermos peões no xadrez do existir, suposto que é justamente a represa das angústias que deságua no Aqueronte.
Noves fora os equívocos passados, penso que amanhece a cada dia uma história diferente em nossa vida, e a só possibilidade de mudarmos o prumo na caminhada já apascenta água parada.
Quero pegar outra vez tua mão e convidá-la a bailar. Espero que seja diferente e não levemos angústia a dançar – afinal o Aqueronte deságua na represa das vidas e almas paradas.
Quero com toda minha força fazer melhor o que talvez não tenha sido o meu melhor momento e, assim, ser mais leve na condução de uma contradança, de um jantar a dois, de uma matinê de sábado entardecida, onde a elegância e fluidez dos movimentos não estarão represados senão na beleza dos longos desafios de bem viver.
Afinal é disso que a vida é feita – momentos...
Passa que estamos desacreditando os acenos de existir, os reiterados avisos da natureza, as inúmeras mortes que o machismo estrutural herdado do patriarcado segue a patrocinar.
Estamos exaustos e, cansados, seguimos na teima do esgotamento dos recursos naturais do planeta. Tanto quanto investimos na queima da faísca emocional que viver revela.
Já não nos emocionamos o bastante. A emoção tem preço e acalenta um sonho de consumo na construção de um instante de satisfação que aponta para ter (sempre algum bem) em vez de ser.
Há um equívoco redivivo em nossas prioridades e este descaminho vem roubando o bom da vida enquanto anoitecemos as hipóteses de bem querer, soltando a mão de quem poderia e deveria ser mais na equação dos povos.
Este quadro se abastece na noite dos tempos, quando vamos ter com as escolhas que deixamos pelo caminho, naquilo que ser deveria valer uma experiência maior do que ter.
As escolhas já foram feitas e os dados lançados, suposto que a vida raramente nos dá uma nova oportunidade – daí aquele ditado antigo que o cavalo encilhado não se deve deixar partir.
Não vou, todavia, deixar o escuro vencer. Sigo sendo uma circunstância de mim mesmo, que não quer se cansar do bom combate.
Há vida a ser vivida e eu quero mais de meus instantes – e os quero com você.
Tristes trópicos, saudade pai!
João Gomes Filho, advogado
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