MUITO ALÉM DO DIPLOMA - Dedicação do aluno faz a diferença
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terça-feira, 26 de outubro de 2010
Érika Gonçalves<BR>Reportagem Local 
Vestibulandos e suas famílias costumam, entre outras coisas, se basear nos rankings das universidades para escolher as instituições onde poderão estudar. Mesmo quando se trata das universidades internacionais, os rankings também ''definem'' quais são as melhores do mundo. A questão é que há diferenças nos resultados. Enquanto em um levantamento a melhor em 2010 é a Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, em outro, Cambridge, no Reino Unido, desbanca todas as concorrentes.
Em ambos, as únicas instituições brasileiras citadas - universidades de São Paulo (USP) e de Campinas (Unicamp) - aparecem sempre abaixo da posição de número 200. Frente a tudo isso, duas questões se destacam. A primeira é a dúvida quanto aos critérios de classificação, já que a mesma instituição aparece como a melhor do mundo em um ranking e em sexto em outro. O segundo questionamento se refere à qualidade das instituições brasileiras, que, independentemente dos critérios, aparecem em classificações nada lisonjeiras.
Ângelo de Souza, coordenador de pós-graduação em Educação da Universidade Federal do Paraná (UFPR) tem uma visão particularmente polêmica a respeito do assunto. Para ele, o mais importante não é a classificação alcançada, mas o que se pode fazer para resolver os problemas levantados nas avaliações. E reforça a importância da educação principalmente nos primeiros anos de estudo. ''A educação básica, responsabilidade primeira dos Estados e municípios, continua muito carente'', aponta.
Qual o nível de importância deve ser dado aos rankings na hora de escolher uma universidade?
Nunca devem ser levados em conta. Classificar só faz sentido quando é para auxiliar aqueles que estão em piores condições. Se alguém escolhe ou procura escolher uma universidade para fazer seu curso de graduação ou pós-graduação baseado em uma avaliação dessas, para mim está errado. Por quê? Vamos pegar um exemplo no Paraná. A Universidade Estadual de Maringá (UEM) é muito bem classificada nos indicadores no Ministério da Educação, na Capes (Coordenadoria de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior). Mas quão melhor ela é do que a Universidade Estadual de Londrina (UEL)? Em alguma aptidão ela é uma escola importante, mas o grau de envolvimento que o aluno tem pode, no meu entendimento, se tornar determinante para a formação do sujeito, na graduação ou pós-graduação.
O senhor acha que em termos profissionais temos alguma desvantagem no mercado em decorrência desses ranking?
Nenhuma. Há uma mitificação da ciência. Se o indivíduo sai formado em Administração na universidade X, em tese ele tem mais facilidade de colocação no mercado. Só que isso não faz dele profissional melhor do que um cara formado na universidade Y. E o mercado está começando a perceber isso. Nos diferentes campos do conhecimento o mercado está começando a perceber que o título é importante, mas muito mais importante é o quanto ele consegue fazer uso desse título. Esses rankings e títulos não contribuem em nada, os alunos que passam por uma universidade de maior chancela já tiveram muito mais privilégios no passado. Hoje isso pode acontecer, mas em menor proporção.
Como as universidades, professores e alunos podem perceber o que deve ser melhorado e como fazer isso?
Toda universidade, obrigatoriamente, por força de legislação federal, tem que ter sua comissão permanente de avaliação. E a tarefa dessa comissão é exatamente levantar indicadores que apontem problemas e alternativas de soluções. O caminho adequado é fazer que essa comissão exista, funcione e publique seus resultados de forma que o planejamento institucional de cada uma das unidades, de cada departamento, possa se valer dessas informações de maneira a atacar o problema que a instituição tenha.
Um resultado como o do Enade (Exame Nacional de Desempenho de Estudantes), com toda a boa intenção que tenha o Ministério da Educação, tem ajudado pouco porque efetivamente aquilo que é mais problemático não tem aparecido no relatório, que é o grau de envolvimento da universidade para manter o aluno envolvido na vida universitária.
Qual a importância do nível de qualidade do ensino superior na determinação do grau de desenvolvimento de um país?
O país é tão mais desenvolvido quanto mais alto é o nível de formação superior dos seus cidadãos. Eu me preocupo menos com a ótica do desenvolvimento econômico e mais na perspectiva do desenvolvimento social. Um país que pretenda ser desenvolvido não pode pretender ser desenvolvido apenas economicamente. Trata-se de desenvolvimento social, cultural, ambiental. A formação educacional em geral e em nível superior em particular pode contribuir muito. É necessário investir mais em tecnologia, educação básica, educação superior, o que levará a um aumento da capacidade cultural, social, econômica do país.
O certo então é não colocar todas as expectativas no ensino superior?
Não sou contra a universalização do ensino superior, pelo contrário, sou favorável à ampliação e até acho que estamos começando a viver um momento em que a pressão para que as pessoas ingressem no ensino superior está começando a diminuir. Porém, a educação básica, responsabilidade primeira dos Estados e municípios, continua muito carente. Não dá para ter um desenvolvimento social, cultural ou econômico com uma população com baixa escolaridade.


