Muito a fazer
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 20 de novembro de 1996
Lillian Witte Fibe 
Neste fim de ano, o governo de Fernando Henrique Cardoso começa a ser assediado pelas coisas que deixou de fazer, tanto na área econômica, quanto na política. O malogro principal do governo este ano foi não cortar suficientemente a despesa pública. E o déficit público, ainda em expansão, funciona agora como uma espécie de fantasma permanente, assustando a todos e dificultando todas as ações do governo.
Por exemplo, não seria tão grave o inesperado déficit da balança comercial, acumulado até outubro em torno dos US$ 3 bilhões, se as contas públicas estivessem equilibradas. Não seria impossível fazer uma desvalorização mais forte do real, se - novamente - as contas públicas estivessem em ordem. Também seria bastante normal o Banco Central reduzir as altíssimas taxas de juros, se - de novo - não houvesse déficit no orçamento público.
O governo Fernando Henrique, daqui a pouco entrando em seu terceiro ano, está arriscando a ficar prisioneiro das coisas que não fez. Em outro exemplo, ainda na área econômica, ele poderia estar em posição mais confortável do ponto de vista do déficit público se tivesse cumprido sua promessa de tocar com vigor o programa de privatização. Mas pouco fez em matéria de privatização.
Se o governo de Fernando Henrique tivesse, conforme prometeu muitas vezes, desonerado rapidamente as exportações, não estaria hoje batalhando contra um preocupante déficit da balança comercial. Se tivesse obtido sucesso na desoneração das folhas de salários, não teria que enfrentar um índice tão alto de desemprego.
Na área política, o governo compartilha com o Congreso a responsabilidade pela omissão mais grave deste ano: o não andamento das reformas constitucionais. Aqui também havia uma expectativa otimista da opinião pública, depois da boa arrancada que o Legislativo deu no primeiro semestre do ano passado. Mas, desde então, as reformas estruturais se perderam nas comissões técnicas e por lá ficaram. Com grave prejuízo para a imagem do Congresso.
Para o governo de Fernando Henrique, o adiamento das reformas políticas singnifica que o País não ficará tão cedo em condições de produzir o forte crescimento econômico que o deveria levar para o Primeiro Mundo.
Por causa da emenda que vai permitir a reeleição do presidente da República, o País ingressa agora em outra fase de adiamentos e protelações, da qual talvez só saia depois do Carvanaval de 1997. Ou no segundo semestre. A lista das coisas não feitas pelo governo continuará crescendo. Mas um dia será preciso enfrentar a realidade.
- LILLIAN WITTE FIBE é jornalista em São Paulo.


