Muita indústria, pouco emprego
Metalúrgicos de São Caetano começaram a semana com a notícia mais temida pelos trabalhadores nos dias atuais: demissão em massa. A GM anunciou o corte de 808 funcionários, com a desativação do turno de produção da noite. A medida é resultado da retração das vendas de automóveis no varejo que, no primeiro semestre do ano, bateu em 13%.
Sobrou para os trabalhadores da GM, como tantos outros pelo País afora, a conta da coleção de indicadores negativos que os jornais não se cansam de estampar há meses: dólar em alta, juro congelado na estratosfera, crédito escasso, poder de compra minguado.
As outras indústrias automobilísticas têm enfrentado a atrofia do mercado com férias coletivas. Mas ninguém duvida que, sem uma rápida reação na ponta varejista da cadeia improvável, na atual conjuntura o caminho de todas as montadoras será o mesmo que a General Motors trilhou. Com pátios cheios o bastante para vender por um mês e meio, os executivos não vêem sentido em produzir.
Apesar do cenário recessivo em praticamente todos os setores da economia, não se pode ignorar que muitas linhas de montagem no País foram instaladas no ''boom'' automotivo dos anos 90 baseadas na ilusão dos subsídios fiscais, com a vantagem da dilação de impostos e infra-estrutura custeada gentilmente pelo Estado, além de financiamento oficial de longo prazo. O governo do Paraná aderiu a essa moda.
Tanta generosidade pública não se refletiu em empregos, o único ganho real que os polêmicos programas de atração de investimentos renderiam. É só comparar: em junho de 97, as montadoras empregavam 114,8 mil brasileiros. Hoje, o setor ocupa menos de 94 mil trabalhadores. O detalhe é que, nesses cinco anos, pelo menos 13 fábricas foram abertas. Avanços na produtividade são bem-vindos, mas o resultado aritmético fala por si: nova indústria não foi, definitivamente, sinônimo de empregos.
Jean-Pierre Kemper, consultor da norte-americana Autopolis, resumiu precisamente, em entrevista à Agência Estado, a década passada no setor automotivo no Brasil: ''Foram anos de excessos, não de sucessos''.
Ruth Meira





