Mude de canal
PUBLICAÇÃO
domingo, 16 de agosto de 1998
Joel Samways Neto 
Semana passada, esta Folha divulgou que um cidadão paranaense, ligado a um movimento religioso, estava, segundo entendi, propondo que as famílias desligassem o televisor e vivessem mais o diálogo. Sei, sei. Isso é interessante. Lembra-me a história de um amigo de um amigo meu (este que me contou). O sujeito, certa vez, em pleno horário nobre, durante a novela das oito, teve seu televisor pifado. A sensação experimentada por ele, e pela família, foi mais ou menos aquela do doente que ouve seu médico dizer que o caso é de doença incurável. Primeiro, ele e a família negaram que o televisor tinha estragado. Aquilo não podia ser verdade, era um pesadelo, não estava acontecendo. E dê-lhe mexer na antena, na tomada, no seletor de canais. Logo ele estava chacoalhando freneticamente o aparelho, como quem sacode um pessoa que está dormindo e não quer acordar. Inútil. Simplesmente o tubo de imagem se recusava a dar o menor sinal de funcionamento. O passo seguinte foi a revolta. Todos ficaram enfurecidos com o fato. Xingaram a fábrica de televisores, protestaram a respeito do direitos do consumidor, sobrou até para o autor da telenovela, e ainda respingou nas crianças e no cachorro. Meiahora mais tarde, depois desse amigo do meu amigo ter sido contido pela esposa, que o impediu de arremessar o televisor pela janela (eles moravam no quarto andar), veio a fase seguinte: a aceitação. Era triste mas era verdade, a TV tinha queimado e ninguém fazia idéia do preço de prejuízo, e, pior, nem por quanto tempo ficariam sem televisão em casa.
Alguns dias depois, esse amigo do meu amigo já estava afirmando que a melhor coisa que tinha acontecido nos últimos tempos era a pifada do televisor. Porque sem a rotina de entretenimento da telinha, o fulano e seus familiares começaram a voltar a ler livros, a ouvir música juntos, a conversar mais. O caso é que a TV ficou pronta mas ninguém tinha pressa de buscá-la do conserto. A televisão deixara de ser a preferência, a unanimidade do lar.
O Herbert de Souza, o Betinho, costumava criticar a hipnose massacrante da televisão, que alienava tanto o brasileiro. Dizia, no entanto, que bastava desligar o aparelho e a realidade se impunha. Realmente, para se verificar o nível de comprometimento das pessoas com a TV, basta observar como ela participa da vida cotidiana. É comum visitarmos pessoas que insistem em manter o televisor ligado e na roda da conversa, como se também fosse visita. E conversam, e olham para a televisão, e voltam a conversar, de repente interrompem o interlocutor e prestam atenção no programa etc. Isso sem contar a função clássica da babá eletrônica.
Agora, esse negócio de desligar o aparelho... Resta saber se seria uma decisão democrática, gerada a partir de uma reunião familiar, ou se seria mais um ato institucional decorrente da tirania doméstica. Adultos e crianças abririam mão de seu programas favoritos para compartilhar a celebração da vida? Olhe, um programa de TV só se torna maior do que a vida quando este perde seus atrativos para os viventes. Como é possível uma criança preferir ficar jogada no sofá, devorando guloseimas, com o olho vidrado na telinha, ao invés de realizar um emocionante acampamento, uma atividade ao ar livre, em contato com a Natureza? Só é possível porque os adultos dificilmente têm tempo para criar opções mais vantajosas do que a televisão - eles próprios já se conformaram com essa forma de dominação.
Televisão é uma bela ferramenta do processo civilizatório. Porém - perdoe-me o clichê - como toda ferramenta, ela também se presta ao mau uso. Mas é o mau uso que deve ser evitado, não a ferramenta.
Resgatando um pouco as lições de McLuhan, a TV, espécie do gênero meio de comunicação de massa, foi criada para estender o sistema nervoso humano, fazendo com que ele envolva a humanidade, tornando o planeta aquela tal aldeia global, onde todos sabem de todos, todos aprendem com todos. Claro que a violência (lato senso) precisa ser expurgada. Aliás, causa admiração como pode haver programas de baixarias sendo veiculados por concessionárias do poder público (empresa de televisão é concessão do povo), quando a Constituição da República já estabeleceu os parâmetros de respeito aos valores éticos e sociais da pessoa e da família. Se a baixaria existe é porque o Ministério Público está dormindo na frente da televisão.
Seja lá como for, você decide o canal de televisão, você escolhe o programa. Ninguém é obrigado a engolir ratos, galos, sapos. Ou desligue o televisor e sintonize na celebração da vida real - que tem tudo a ver com você.
- JOEL SAMWAYS NETO é escritor e procurador do estado do Paraná.


