ESPAÇO ABERTO -

Mudar por dentro e por fora


Todos os seres do universo vivem numa rede interminável de relações. Nada existe fora dessa teia, mas precisamos despertar a consciência coletiva para o entendimento dessa conectividade essencial. Essa compreensão é fato em cientistas e pensadores como Edgar Morin, Ilya Prigogine, além dos precursores da física quântica Werner Heisenberg e Niels Bohr.


Heisenberg e Bohr definiram tudo o que existe como uma trama interminável de relações, não de objetos separados. Esse entendimento da realidade não é novo, remonta aos povos ancestrais e se consagrou nas sabias palavras do cacique Seattle em 1855: “De uma coisa sabemos. A terra não pertence ao homem: é o homem que pertence à terra, disso temos certeza. Todas as coisas estão interligadas, como o sangue que une uma família. Tudo está relacionado entre si. Tudo quanto agride a terra, agride os filhos da terra. Não foi o homem quem teceu a trama da vida: ele é meramente um fio da mesma. Tudo o que ele fizer à trama, a si próprio fará.”



Usurpamos e saqueamos os recursos naturais até à sua iminente exaustão e usamos a mesma lógica para dominar e explorar os nossos semelhantes, tudo em nome de uma acumulação patológica e insaciável. O resultado é um planeta doente, que se manifesta por meio de recordes sucessivos de temperatura, tufões, terremotos, tsunamis, enchentes, secas prolongadas, além da liberação de micro-organismos, até então reclusos em seus habitats naturais e que uma vez liberados nos espaços de convivência humana podem dizimar milhões de pessoas. São exemplos recentes, dengue, sars, ebola, HIV, chikungunya e agora o coronavírus. 

Einstein dizia que “a visão de mundo que criou a crise não pode ser a mesma que nos vai tirar dela”. Parece óbvio, mas corremos o risco de não aprender nada. A crise econômica de 2008-2009 é um exemplo recente, parecia ser um divisor de águas na configuração socioeconômica mundial, pois atestava de forma clara a incapacidade de autorregulação dos mercados e a necessidade de maior intervenção do Estado na economia. Mas o que parecia certo, logo caiu por terra e a mesma lógica de acumulação predatória e indiscriminada voltou a se impor com toda a força, aumentando a já abissal polarização entre ricos e pobres. A história é prodiga em ensinamentos, mas muito pouco aprendizado, somos sapiens, mas também demens, sábios e dementes. 

Novamente, diante do colapso provocado pela pandemia, todos recorrem desesperadamente ao Estado, aquele mesmo demonizado nas últimas quatro décadas pelos arautos do neoliberalismo. A história repetidamente demonstra que uma economia só de mercado é insuficiente e trágica, a vida não pode ser reduzida a leis mercantis, pois segue outros princípios que devem se sobrepor à lógica da maximização do lucro e do autointeresse. 


Como nos diz Renato Meirelles “Se tem um lugar no Brasil onde o Estado mínimo existe, é a favela”. Ali não há nenhum tipo de regulação ou proteção estatal, domina a informalidade e a lei do mais forte, as consequências e resultados todos conhecem.


A atual pandemia do coranavírus representa uma oportunidade única para repensarmos o nosso modo de habitar a Casa Comum, a forma como produzimos, consumimos e nos relacionamos com a natureza e uns com os outros. Chegou a hora de questionar as virtudes da ordem do capital: a acumulação ilimitada, a competição sem limites, o individualismo, a indiferença face à miséria de milhões, a exaltação do autointeresse, o domínio da vaidade e do egoísmo. A pandemia nos leva a refletir e nos convida a realizar mudanças profundas, tanto dentro de cada um, como nas estruturas externas que configuram a sociedade. 

 Luís Miguel Luzio dos Santos, professor de socioeconomia da UEL (Universidade Estadual de  Londrina)



 

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