Mudar a legislação trabalhista - Walmor Maccarini
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 14 de janeiro de 1999
Walmor Maccarini 
Doze anos atrás escrevi uma série de artigos neste jornal propondo uma adequação da legislação trabalhista ao operário do campo, recebendo apoio da Sociedade Rural do Paraná e de outras associações de agricultores, da Organização e Sindicato das Cooperativas do Paraná (Ocepar), de sindicatos rurais, clubes de serviços, empresários e estudiosos de questões trabalhistas. Tudo isto foi publicado e sendo enviado aos ministros do Trabalho e da Agricultura que se sucediam, e inclusive aos presidentes da República, bem como a grande número de parlamentares da bancada ruralista. De cada um deles - aí incluindo o então presidente Itamar Franco - recebi aquelas tradicionais correspondências informando que a proposta era oportuna e pertinente e que estava sendo encaminhada aos órgãos competentes, para estudo. Na sequência escrevi outros artigos, propondo mudanças na própria lei trabalhista em geral, porque o modelo vigente era desestimulador de contratações, portanto inibidor do emprego. Como é ainda hoje. Em certa ocasião o ministro Almir Pazzianoto manifestou-se, publicamente, defendendo mudanças na Consolidação das Leis do Trabalho, com capítulos destinados aos trabalhador do campo.
Infelizmente tudo ficou no papel, nos discursos e nas boas intenções.
Esta semana lemos nos jornais que Francisco Turra, ao assumir seu segundo mandato como ministro da Agricultura de FHC, defendeu mudanças na legislação trabalhista, para tentar evitar o êxodo rural, e o novo ministro do Trabalho, Francisco Dornelles, em entrevista a este jornal também propôs uma flexibilização da lei que regulamenta as relações do trabalho.
É alentador saber que estas duas influentes autoridades elejam essa mudança, entre outras, como importante para a causa do emprego. Porque a rigidez da lei do trabalho, no Brasil, é em parte responsável pelo desemprego. Porque os empresários, grandes e pequenos, têm medo dessa lei e das consequentes ações trabalhistas. Porque eles sempre perdem. Com essa legislação vigente regulando o contrato empregado-patrão o empresário sabe que, ao admitir um trabalhador, está admitindo um sócio, porque uma ação na Justiça do Trabalho pode levá-lo à falência se ele não tiver suporte financeiro, e a maioria não tem.
Hoje, no Brasil, só os ousados aventuram-se em abrir empresa, e são eles que seguram o emprego. São eles as grandes alavancas de desenvolvimento de que a Nação dispõe. A área oficial representada pelos nossos legisladores no Congresso deveria, então, favorecê-los de todas as formas. Mas não. Pune-os mantendo uma legislação rígida, como se na relação empregado-patrão este seja o vilão. Os sindicatos de trabalhadores, os juízes trabalhistas e os próprios jornalistas também tendem para esta visão. Parece que só cabe defender uma das partes, o empregado.
Defender o trabalhador não é encher-se de felicidade quando ele é beneficiado com gorda indenização, porque no caudal é uma empresa que se esfola ou quebra, e aí podem juntar-se a ele mais desempregados, patrão incluído. Defender o trabalhador é defender o emprego, e para defender o emprego é preciso primeiro defender a empresa. Com empresas sólidas, vem na esteira o melhor salário. Ademais, o empresário é também um trabalhador.
Quanto ao empregado do campo, sabe-se que o advento do Estatuto do Trabalhador Rural, 35 anos atrás, fez gerar o êxodo rural, porque implantara para o meio agrícola a mesma lei trabalhista do trabalhador urbano. Quem tinha famílias de trabalhadores em suas terras mandou-as embora, pois como regular férias, 13º salário, trabalho aos domingos e feriados, a participação da mulher e filhos nas tarefas pertinentes, o eventual trabalho noturno? Uma vaca não tem hora para pular a cerca, a chuva que vem não sabe se é dia santo, e é preciso recolher o feijão do terreiro.
Com tal Estatuto - e quem viu e viveu sabe - as famílias postas na estrada obviamente correram para as cidades, inchando as favelas e gerando a figura desse pária sem vinculação empregatícia denominado bóia-fria. Os políticos e as lideranças sindicais da época amavam muito os trabalhadores... E ainda os amam, tanto que não permitiram mudar esse famigerado sistema.
Sabem quem ama, mesmo, o trabalhador? É o empresário!
Sabem quem ama os trabalhadores? São aqueles que defendem os patrões e as empresas!
A prevalência da mentalidade antiempresário, que vigora no Brasil, é que tem mantido a rigidez da legislação trabalhista, porque todos têm medo de mexer nela. Os parlamentares preferem ocupar-se de outros temas, os sindicatos vivem ainda nessa cegueira de que não devem dialogar com os patrões, permitir concessões (embora alguns tímidos avanços já estejam acontecendo), e os jornalistas pisam entre ovos quando se ocupam dessas questões. Ora, nos dias em que vivemos as empresas já não pensam em explorar trabalhador.
Se salvamos a empresa salvamos o trabalhador.
- WALMOR MACCARINI é jornalista em Londrina


