Mudar a aposta
PUBLICAÇÃO
sábado, 28 de junho de 1997
Antônio Delfim Netto 
A retomada do crescimento econômico é o grande desafio que temos que enfrentar, após três anos de Plano Real. O Real é um programa bem sucedido de controle de inflação. Os trabalhadores tiveram um ganho de renda com o restabelecimento do poder de compra dos salários e puderam melhorar o padrão de vida de suas famílias ao adquirir produtos para suas casas. Nada disso foi equilíbrio sem sacrifício, sem suar a camisa e em muitos casos à custa de um endividamento nos crediários.
Nesses três anos, porém, surgiram alguns problemas que o governo está custando a enfrentar e que ameaçam pôr a perder uma boa parte dessas inegáveis melhorias. O maior desses problemas é a brutal redução das oportunidades de trabalho que atinge indistintamente os brasileiros nas cidades e no campo. Por que tantas pessoas foram desempregadas e por que não se amplia o mercado de trabalho?
A resposta pode ser resumida no seguinte: quando começou o Plano Real, a Indústria e a agricultura brasileiras estavam desprotegidas diante da concorrência externa, por causa de uma redução das tarifas de importação. O governo achava isso muito bom porque as importações ajudavam a segurar os preços dos produtos brasileiros e, portanto, auxiliavam no combate à inflação. E ele facilitou ainda mais, mantendo o dólar barato. Mas tem o outro lado da moeda: ao dar preferência aos produtos importados, nós trocamos produção brasileira por estrangeira. Quer dizer, dispensamos nossos trabalhadores e ajudamos a manter o emprego lá fora, nos países que exportam para nosso mercado. Isso foi muito grave no setor industrial, como nos casos das autopeças, de tecidos e vestuário, de máquinas etc... mas atingiu também rudemente a agricultura. Não é por acaso que tem tanto sem-terra nas estradas. Milhares de trabalhadores foram dispensados nas lavouras de algodão, arroz, trigo, na cultura de cacau, etc., porque ficou mais barato importar!
Tem outra coisa: ao manter o dólar barato (ou o real sobrevalorizado, o que é a mesma coisa) desestimulamos as empresas brasileiras exportadoras e elas demitiram seus trabalhadores, tanto no setor industrial como na agricultura.
É simples entender o que isso tem a ver com o crescimento da economia. Como exporta pouco e ganha muito com as importações, o Brasil está se endividando lá fora para cobrir o buraco nas contas externas. Esse buraco só é coberto porque o governo mantém os juros internos altos para garantir a entrada de recursos externos. O pior é que uma boa parte desses recursos está vindo aqui para especular, para ganhar juros e não para investir na produção e na criação de empregos. Na melhor das hipóteses eles estão vindo para comprar nosso mercado interno. Os empresários brasileiros também demoram a investir por causa dos juros; e as empresas exportadoras não conseguem exportar mais por causa da sobrevalorização do real, deixando de criar empregos.
O governo acha que está muito bom assim. Que a economia não deve crescer mais que 3% ao ano, para não ameaçar a estabilidade da moeda. Com o desemprego, o governo parece não se importar muito...
Vai ser preciso, portanto, convencer o governo a baixar os juros e a ajustar o câmbio para que a economia volte a crescer e crescer sem inflação. O Brasil só vai dar emprego aos seus trabalhadores se a economia voltar a crescer no mínimo 6% ao ano. A aposta do governo é que não existe crescimento com estabilidade. O desafio é fazê-lo mudar a aposta.
- ANTÔNIO DELFIM NETTO, ex-ministro da Fazenda e Planejamento, é deputado federal (PPB-SP)


