A pergunta no ar e as respostas começam a ser esboçadas: quais os desdobramentos que vão se dar após a aprovação da emenda da reeleição, em primeiro e segundo turnos na Câmara e no Senado? Mesmo que se considere a política o território da imprevisibilidade, alguns sinais são muito claros. Primeiro, a indicação de uma profunda reforma ministerial, necessária para reagrupar os interesses das bases governistas, principalmente os setores que sairam chamuscados do processo. A seguir, a reforma política, orientada para a correção de desvios, como a questão da fidelidade partidária, a redefinição do sistema de voto (distrital misto) e a marcação de novas regras para as campanhas eleitorais. Em consequência, será quase inevitável a formação de um novo partido, para onde convergirão os grupos insatisfeitos com o governo.
É claro que Fernando Henrique, que praticamente garantirá mais quatro anos de mandato, caso o Real continue cacifando a estabilidade econômica, arregimentará mais forças, tornando-se a principal referência em relação às mundanças no tecido institucional do país. O balanço da reeleição aponta para os seguintes movimentos:
Continuidade administrativa - a maioria dos atuais governadores tem interesse em se reeleger, principalmente aqueles com boa imagem. Tal possibilidade alterará o cenário político, ensejando a continuidade governamental, evitando os eternos recomeços administrativos e possibilitando a implantação de programas de longo prazo. O governo federal descarregará sua ênfase no plano social, para fechar o circuito da aprovação e evitar, nessa área, as críticas dos adversários na campanha de 98.
Cenário político - o balcão de negócios da política ficará mais agitado, apenas por ocasião da reacomodação de forças, na hora da reforma partidária. Depois, a política tende a se acomodar no leito da perenidade, onde trafegarão partidos mais fortes e coerentes. Os políticos deverão dar maior e melhor atendimento às bases eleitorais.
Cenário econômico - o governo deverá promover reajustes na política econômica a fim de preservar a estabilidade da moeda, pressionando para que o Congresso dê sequência às reformas já iniciadas. Dispõe de José Serra para um alto posto na área econômica, mas ainda teme que sua personalidade forte acabe gerando atritos no atual conjunto da economia.
Partidos - O PSDB deverá ser o maior partido nacional, atraindo parlamentares de quase todas as outras siglas, principalmente do PMDB e PPB. O PFL deverá continuar sua plataforma de adensamento na região sudeste, tornando-se opção hegemônica. O terremoto que a reeleição vai provocar acabará dando lugar a um novo espaço (um partidão de centro, alinhado ao Governo, mas não de modo automático) para abrigar os descontentes da base governista.
Maluf - Sairá enfraquecido, mas não desistirá de sua pretensão de ser presidente. Sairá às ruas de todos os Estados, com a bandeira populista do desenvolvimento regional, única alternativa para tocar o coração dos eleitores. Será grande a pressão para se candidatar ao Governo de São Paulo.
Itamar/Quércia/Lula/Sarney -O ex-presidente vai se consolar com a candidatura ao Governo de Minas, ao reconhecer que hoje é diferente de ontem. Quércia ficará com a ex-poderosa estrutura do PMDB paulista, colocando sua desastrada candidatura ao Governo e se afastando do chamado ‘PMDB ético’. Lula transformar-se-á no consultor petista para efeitos de seleção de nomes aos governos de Estado e também do candidato do partido à Presidência da República, possivelmente Tarso Genro. Sarney ficará muito satisfeito com a reeleição de Roseana e será uma espécie de conselheiro-especial de FH.
População - Depois de ter dado a FH e a alguns governadores o passaporte da continuidade, será exigente no campo dos programas sociais. Mandará para casa aqueles que não estiverem realizando boas administrações, mesmo que a máquina governamental seja usada. O eleitor está muito racional. Um primeiro balanço da reeleição mostra consequências positivas para o país.

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