Mudanças nos cursos de Pedagogia - Teófilo Bacha Filho
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 20 de agosto de 1998
Teófilo Bacha Filho 
A revista The Economist de 18 de julho traz reportagem sobre as medidas que vários estados norte-americanos estão adotando para atrair bons professores para as escolas públicas. Cita o exemplo de Massachusetts, orgulhoso da qualidade histórica de suas escolas, que se confrontou com 60% de reprovação no último teste para professores. Resolveu, então, aplicar o superávit deste ano, US$ 1 bilhão, em incentivos para atrair candidatos qualificados: oferta de US$ 20.000 somente para o professor assinar o contrato. Mas, como assinala a presidente do sindicato local, atrair professores é, com certeza, importante; porém, mantê-los é muito mais importante , lembrando a necessidade de melhores salários, condições de trabalho e políticas de aposentadoria adequadas.
No caso do Brasil, a questão é um pouco mais complexa. Além das insuficientes condições de salário e trabalho, nos defrontamos com a falta de docentes adequadamente formados. A antiga Lei 5692/71, além de manter em vigor os programas emergenciais de habilitação ao Magistério (Esquemas I e II), previa várias formas suplementares de suprir essa falta. De meados de 80 em diante, o CFE começou a incentivar a substituição das licenciaturas curtas pela sua plenificação.
No caso dos cursos de Pedagogia, desde o início da década de 90 vem sendo discutida sua reestruturação, chamando-se a atenção especialmente para alguns problemas graves: a fragmentação nas diferentes habilitações, falta de articulação entre os conteúdos e as disciplinas, dissociação entre teoria e prática por falta de um eixo articulador do trabalho docente, inadequação do curso frente aos desafios do atual estágio de desenvolvimento.
A nova LDB (Lei 9394/96) afirma que a formação dos profissionais da educação far-se-á em nível superior e terá como um dos fundamentos a íntima associação entre teorias e práticas. No entanto, prevê a possibilidade da preparação de professores para a educação infantil e a 1ª etapa do ensino fundamental no ensino médio, através de escolas normais.
Não se pode deixar de reconhecer que a nova legislação dá maior organicidade ao processo de formação de educadores, realçando sua dimensão propriamente pedagógica (Saviani). Evidencia-se a preocupação com a superação da dicotomia teoria/prática e a ênfase na prática de ensino como eixo de formação, dois dos aspectos mais relevantes da discussão sobre a formação de educadores.
Nessa direção, um passo significativo foi dado, em nosso Estado, pela Universidade do Oeste do Paraná (Unioeste), ao apresentar, para o curso de Pedagogia, um novo projeto pedagógico. Partindo de uma análise crítica elaborada através do debate acadêmico, a Unioeste reavaliou a prática pedagógica a partir da perspectiva de um pedagogo cuja atuação superasse a fragmentação do trabalho escolar e rompesse os limites apresentados pela escola.
Assim, a reformulação do curso articulou-se em torno de quatro objetivos: 1. Sólida fundamentação teórico-metodológica; 2. Fortalecimento da formação teórico-prática do professor para o ensino fundamental; 3. Formação pedagógica interdisciplinar superando as especialidades; 4. Integração dos estágios na totalidade do curso, articulando ensino, pesquisa e extensão.
A Unioeste procurou estruturar um currículo ao mesmo tempo enxuto e flexível, eliminando a multiplicidade de disciplinas; a análise dos conteúdos indica a preocupação em propiciar, ao aluno, uma sólida base teórica sem, contudo, deixar de estabelecer a vinculação entre teoria e prática e entre teoria e realidade social. O estágio deixa de ser uma inútil observação de aulas para tornar-se construção coletiva articulada com a instituição (escola) na qual se desenvolve.
Com essa reformulação, a Unioeste abandona as antigas habilitações que fragmentavam a atuação do pedagogo, em favor de um profissional com visão global do processo educativo, capaz de atuar em todos os seus setores e etapas. A iniciativa da Unioeste é resposta consciente aos desafios contemporâneos para a formação de um profissional da educação tecnicamente competente e socialmente comprometido.
É de se ressaltar que o faz com ousadia, na contramão de propostas oficialistas que tendem a aligeirar ou minimizar a formação docente em obediência a interesses inconfessados (e inconfessáveis!). O novo projeto do curso de Pedagogia da Unioeste não é uma obra acabada e perfeita; mas se constitui num roteiro de reflexão válido para todos quantos busquem novos rumos para os profissionais de educação que a nossa realidade demanda.
- TEÓFILO BACHA FILHO é membro do Conselho Estadual de Educação do Paraná


