No lugar do esforço braçal do trabalhador do campo, máquinas executando o mesmo serviço. Com a invasão cada vez maior de equipamentos agrícolas, o papel do trabalhador rural passa por mudanças, aumentando a exigência de capacitação profissional para que ele acompanhe a evolução do setor.

''Hoje até para operar um trator é preciso saber o mínimo de tecnologia. Aquele trabalhador que só sabe carpir não desperta mais o interesse do mercado'', afirma Evalton Turci Sidney, assessor regional da Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado do Paraná (Fetaep).

Nesta entrevista à FOLHA, ele fala ainda sobre exploração do trabalhador rural e as recentes greves na região norte do Estado, reivindicando salários atrasados e melhores condições de trabalho.

O perfil do trabalhador rural vem mudando nos últimos anos?
Como todo setor da economia, o rural também passou por mudanças. E o grande desafio das entidades ligadas ao setor é acompanhar essa evolução, qualificando melhor o trabalhador, tirando-o daquela mão-de-obra que não existe mais, não tem mais demanda, pela entrada de novas tecnologias, e levando para outra área que exige especialização. Qualificação hoje é essencial em qualquer área. Nosso objetivo é fazer com que os sindicatos passem a preparar os trabalhadores para estes novos espaços que estão surgindo. O sindicato não pode mais ser visto apenas como a entidade que trata apenas dos direitos trabalhistas, faz as rescisões contratuais ou encaminha o trabalhador para a aposentadoria.

Como funciona essa capacitação?
As secretarias municipais de Agricultura, a Emater, as cooperativas e os sindicatos formam convênios para atrair recursos para a aprendizagem rural. Temos ido às comunidades, feito encontros com jovens, seminários com mulheres, encontros com trabalhadores rurais para oferecer cursos em várias áreas, desde uso de equipamentos de segurança no corte de cana, qualificação para melhor colheita de laranja, café, instrução no uso de máquinas agrícolas. Tudo para que o trabalhador rural comece a acompanhar essa evolução. Hoje até para operar um trator é preciso saber o mínimo de tecnologia. Aquele trabalhador que só sabe carpir não desperta mais o interesse do mercado.

E até que ponto a tecnologia e a mecanização prejudicaram a geração de empregos no campo? Podemos dizer que o pior já passou?
Continua prejudicando, mas a gente deve entender que este é um caminho natural, inevitável. Não é só no setor agrícola. Os bancos, por exemplo, reduziram significativamente o número de funcionários com a modernização. Os caixas eletrônicos tomaram lugar de muitos trabalhadores. Em contrapartida, surgem outros nichos de mercado que a gente deve estar atento para capacitar os trabalhadores e atender a demanda.

Passamos por duas greves de trabalhadores rurais na região, reivindicando salários atrasados e melhores condições de trabalho. Dá para dizer que a categoria está mais organizada?
Com certeza. Com a disseminação mais fácil de informações, os trabalhadores começam a ocupar melhor seu espaço, no sentido de levar propostas de desenvolvimento rural, fazer suas reclamações. A questão da cana é preocupante demais. O trabalhador rural tem um ganho relativo bom, mas está acabando com sua saúde. Se os biocombustíveis são uma tendência mundial e o governo quer um produto limpo, vamos começar tratando o trabalhador rural de maneira adequada, respeitando a saúde dele. Temos estudos comprovando que trabalhadores morreram no corte de cana por exaustão, uma jornada excessiva. Se for para continuar dessa forma, que entrem as máquinas e desloquem os profissionais para outras atividades.

A exploração do trabalhador rural ainda é recorrente, mais do que se imagina?
Por incrível que pareça, ainda existe tanto trabalho escravo quanto exploração infantil. O Ministério do Trabalho tem sido muito atuante nessa área, checando as denúncias e penalizando quem comete infrações. Recentemente, crianças estavam sendo empregadas na colheita de laranja com sete, oito anos, trabalhando em ritmo de adulto, até nove horas por dia. É importante denunciar, porque o Ministério investiga e autua a propriedade rural.

Voltando a falar das greves. Com estes movimentos recentes nas regiões de Porecatu e Astorga, dá para prever a ocorrência de mais propostas pelo Estado?
Eu acredito que não, até porque os acordos firmados durante as greves podem servir de exemplo para outras regiões do Estado evitarem esse conflito de interesses entre trabalhadores e proprietários rurais. Não vejo a chance de uma cadeia de greves vir por aí.

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