Mudanças climáticas: um problema político
PUBLICAÇÃO
domingo, 14 de dezembro de 2014
Roger D. Colacios 
De reunião em reunião, as negociações de cúpula entre nações, relacionadas às mudanças climáticas, avançam em passos de formiga e retrocedem a passos largos. Desde 1997, quando foi firmado por muitos países o Protocolo de Kioto a situação climática no mundo caminhou para uma condição insustentável, enquanto as decisões contidas no documento foram ignoradas e mesmo abandonadas por muitos dos seus signatários nos anos seguintes.
O problema nessa situação não vem das ciências envolvidas nos estudos climáticos. Apesar das dúvidas e opiniões contrárias à realidade ou não de fenômenos como o aquecimento global, derivado do aumento do efeito estufa da atmosfera, há um consenso científico formulado em torno dos relatórios publicados pelo Intergovernamental Panel on Climate Change (IPCC). Este, um grupo híbrido composto por cientistas, jornalistas e políticos de várias nacionalidades, tem se dedicado desde 1988 em compor um quadro sólido de informações resultante de pesquisas sobre o clima terrestre desenvolvidas por dezenas de grupos científicos.
Os relatórios divulgados com regularidade desde 1991 receberam a aceitação dos tomadores de decisão provenientes de muitos países e o Protocolo de Kioto foi elaborado com base no documento do IPCC publicado em 1995. Desde então, o organismo internacional, mais que lutado contra os argumentos científicos divergentes, tem enfrentado as agendas políticas dos principais poluidores da atmosfera planetária.
O problema é político. Os EUA, apesar de terem assinado o acordo de 1997, não tiveram sua ratificação aprovada pelo Congresso do país, portanto, nenhuma medida de Kioto foi colocada em prática. Pelo contrário, nos anos seguintes a discussão retrocedeu, com a tentativa do governo Bush de aprovar uma estratégia própria de diminuição dos gases do efeito estufa. Uma política vista por especialistas como inócua. Tal situação pode ser encontrada em outras nações poluentes, com raras exceções.
Até a última sexta-feira, ocorreu em Lima no Peru uma rodada preliminar de negociações climáticas, como prévia para a reunião de Paris no próximo ano. A tendência é que nada saia do lugar. Os EUA tentam empurrar um bloco de medidas de controle dos poluentes, que seriam válidas para todos os países, além de disponibilizarem uma quantia exorbitante para o chamado Fundo Verde, um instrumento que nunca funcionou. Acontece que medidas deste tipo vão de encontro com as condições econômicas de países empobrecidos, que necessitam de um crescimento econômico vigoroso, baseado em indústrias poluentes, para manter vivas as suas populações.
Contudo, existe uma luz no fim do túnel. Conforme observadores presentes nessa reunião, os líderes políticos adotaram uma postura mais realista do que em encontros passados. Aparentemente sabem que alguma coisa deve ser feita de maneira eficiente. A proposta do bloco de medidas dos EUA pode levar a alguma mudança, mas como tem sido discutido a possibilidade maior é que este país, mais a China e talvez a Índia, iniciem antes de ocorrer a reunião de Paris, discussões para acordos bi ou trilaterais.
Muito ainda deve ser feito em relação às mudanças climáticas e ao aquecimento global. Poucos foram os avanços políticos até o momento. As discussões em forma de cúpula internacional não têm funcionado, talvez discussões em blocos de interesse ou então entre aqueles que apresentam os mesmos níveis de poluição podem surtir algum sucesso. O tempo está passando, quem sabe o quanto ainda o planeta pode esperar pelas soluções políticas?


