MUDANÇAS CLIMÁTICAS - Manejo sustentável da floresta pode ser solução
PUBLICAÇÃO
sábado, 02 de outubro de 2010
Érika Gonçalves<BR>Reportagem Local 
" Desmatamento da Amazônia pode contribuir para mau humor do tempo
Acho que cada umdeve começar pela diminuição do consumo
de tudo"
As quatro estações atualmente só existem no calendário. Os tempos de chuva já não são os mesmos de antes. Fenômenos climáticos que nunca aconteceram no Brasil tornaram-se rotina. Nos últimos meses, a ausência de chuvas e a baixa umidade do ar têm castigado a população. Por outro lado, o desmatamento continua e a poluição atinge níveis assustadores, a despeito dos esforços para reduzi-la.
O tema está tão em voga que a equipe do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês), capitaneado pelo ex-vice-presidente norte-americano Al Gore, ganhou o Prêmio Nobel da Paz em 2007 pelos esforços contra o aquecimento global.
Paranaense de Jacarezinho, o pesquisador Niro Higuchi, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, integrou a equipe do IPCC. Morando em Manaus, ele desenvolve pesquisas como o manejo sustentável da floresta. Nesta entrevista, o engenheiro florestal, que tem graduação e mestrado pela Universidade Federal do Paraná e doutorado e pós-doutorado no exterior, explica que o desmatamento da Amazônia pode contribuir no agravamento do mau humor do tempo no mundo e sugere a venda sustentável da madeira como forma de ajudar a preservação.
O que é manejo sustentável para a Amazônia?
É parte da ciência florestal que utiliza um conjunto de princípios, técnicas e normas com o objetivo de planejar e organizar as ações necessárias para ordenar os fatores de produção e de produtividade da floresta manejada.
É possível unir preservação ambiental e exploração econômica da floresta?
Preservar os serviços ambientais é a parte mais fácil e garantida pelo manejo florestal. Basta abrir clareiras adequadas para garantir a sucessão florestal, minimizar as trilhas de arraste e aplicar tratamentos silviculturais apropriados. O grande problema da sustentabilidade do manejo está mais ligado às questões florestais e ao preço da madeira da Amazônia. O grande desafio é encurtar o ciclo de corte, que é, atualmente, de 30, 40 anos.
Em um de seus trabalhos o senhor afirma que o Amazonas tem aproximadamente 150 milhões de hectares de florestas primárias, dos quais mais de 100 milhões poderiam ser consideradas como de produção. Isso não
vai na contramão da
preservação?
Floresta de produção é aquela que permite a implementação do manejo florestal para produção de madeira. O manejo florestal de acordo com os preceitos da lei é uma das poucas estratégias que podem ser empregadas para proteger a floresta amazônica viva em pé. Uma alternativa que se avizinha é a utilização de projetos de carbono do tipo REDD (Redução de Desmatamento e Degradação Florestal). Manejo florestal e REDD podem ser fundamentais na preservação da floresta e da verdadeira riqueza da Amazônia, que são a biodiversidade e suas informações genéticas.
Quais as vantagens de fazer essa comercialização e como seria feita?
A madeira é um artigo de primeira necessidade e com o desaparecimento das principais fontes de abastecimento (Malásia e Indonésia) deste produto, o mercado tende a se voltar para a Amazônia. A vantagem está na geração de empregos e renda para a região. Com estes ingredientes será possível investir maciçamente na própria floresta para protegê-la e para torná-la produtiva para os humanos.
Qual a influência das alterações climáticas sobre a Amazônia e vice-versa?
A Amazônia tem um enorme estoque de carbono capaz de neutralizar todas as emissões do mundo por mais de dez anos. No entanto, mais importante do que o estoque é a capacidade de troca diária de carbono com a atmosfera. A pesquisa ainda dimensionou esta capacidade de troca. O desmatamento da Amazônia pode contribuir no agravamento do mau humor do tempo no mundo. Por outro lado, a poluição global pode afetar o ciclo hidrológico da Amazônia. O fenômeno downburst ou roça de ventos, por exemplo, que ocorreu em 2005 e causou a mortalidade de milhões de árvores amazônicas, poderia ser consequência dessas alterações.
Essa falta de chuvas e consequente queda na umidade do ar, principalmente nas regiões Sul e Sudeste, já são decorrentes das mudanças climáticas?
O principal causador dessas alterações foi o El Niño Modoki. O fenômeno foi apelidado de Modoki (parece, mas não é japonês) porque, ao contrário do verdadeiro, teve início em julho de 2009 e perdeu a sua força somente em julho de 2010. Talvez seja possível atribuir alguma responsabilidade às mudanças globais por este fenômeno atípico.
Até que ponto devemos realmente ficar preocupados com as mudanças climáticas? O que cada um deve fazer para ajudar na conservação?
Nos últimos 150 anos colocamos mais 6 bilhões de pessoas na Terra e com isto aumentamos o consumo e o lixo. Como consequência concreta, a concentração de CO2 na atmosfera pulou de 281 ppm para 381 ppm e não sabemos ainda qual é o máximo tolerável. Independentemente das mudanças climáticas, o tempo enlouqueceu no mundo todo. Furacão extratropical já virou rotina do litoral de Santa Catarina; tornado com a magnitude daquele que ocorreu em Guaraciaba (SC) foi o primeiro no Brasil; enchentes históricas aqui e acolá; secas históricas aqui e acolá; as águas de março da Elis Regina já ocorrem em outros meses e em alguns anos se ausentam etc. Com tudo isto acontecendo devemos nos preocupar. Cada um deve começar pela diminuição do consumo de tudo.


