A qualidade do ensino público brasileiro não é das melhores. O país está na 76 posição no ranking de educação da Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (Unesco), perdendo para a Bolívia, Paraguai e Equador. Considerando as deficiências, o Ministério da Educação (MEC) está propondo mudanças pontuais para o ensino médio.

A grande complexidade na estruturação de políticas públicas é apontada como justificativa para o projeto. Além disso, foram levados em consideração a baixa taxa de aprendizagem e o problema da evasão. De acordo com o MEC, cerca de 1,8 milhões de jovens entre 15 e 17 anos não estão nos bancos escolares.

No entanto, para a pedagoga e doutora em educação, Adriana Regina de Jesus, as mudanças previstas não são suficientes. ''Não adianta mudar o currículo dos alunos se não trabalhar a formação do professor'', critica, ressaltando que atualmente muitos professores brincam de ensinar e os alunos fingem aprender.

As mudanças do MEC vão realmente melhorar o ensino?
As mudanças são válidas e precisam acontecer. É interessante esse investimento no ensino médio, pois estamos com um problema seriíssimo. Mas não podemos esquecer do profissional que está envolvido. A qualidade cai porque a política estabelecida pelo MEC não tem como parâmetro a qualidade e sim as questões econômicas. A precarização do trabalho docente é um grande problema. Deve-se levar em consideração a formação do professor e do aluno. Existe uma desvalorização muito grande do professor. Se essas mudanças não forem acompanhadas por outras, será somente mais um pacote a ser colocado em prática. Não adianta mudar o currículo dos alunos se não trabalhar com a formação do professor.

As políticas educacionais deixam a desejar nesse sentido?
Sim. Elas estão preocupadas somente com o aluno e não com a formação do professor. Existe um autor que diz que as políticas educacionais percebem o docente apenas como o office boy da educação. Infelizmente é isso. Elabora-se um pacote e o professor coloca em prática. Mas não é esse o trabalho que deveria ser feito. Hoje nós brincamos de ensinar e os alunos fingem aprender.

A proposta do MEC é intitulada Ensino Médio Inovador. Na sua opinião tal inovação vai acontecer?
Temos que acreditar que é possível, pois pior do que está não dá para ficar. Fizemos um levantamento e constatamos que 80% dos alunos do ensino médio são analfabetos funcionais. Eu vou ter que concordar com um autor que questiona: para que existir escola se ela só reproduz os valores dominantes? Por outro lado, quando você vê essas iniciativas e pesquisas voltadas para o ensino médio você começa a acreditar que é possível mudar, porém é necessário um repensar mais crítico.

As mudanças devem ser aplicadas no ensino médio, que para muitos é a etapa mais frágil do sistema. O que a senhora acha disso?
O ensino médio é um problema seriíssimo. Para que ele serve? Prepara o aluno para o mercado de trabalho? Não. Também não prepara para o ensino superior. Então para quê esses alunos estão sendo preparados? Eu fico imaginando o aluno que está na escola sem saber o que está fazendo lá e porque ele precisa assistir aulas todos os dias. No Paraná alguns investimentos estão sendo feitos no ensino médio e no material didático. Mas, ainda assim, essa etapa continua sendo um nível muito complicado. Há muita evasão, reprovação e um descontentamento de alunos e professores. É um nível de ensino que ficou muito tempo jogado no plano secundário.

O governo dispensa a atenção que o ensino merece?
Infelizmente a educação não é levada tão a sério. Enquanto o governo não levar em consideração a relação entre escola, família, comunidade e todos os envolvidos nós vamos brincar de fazer educação. Por exemplo, a LDB (Lei de Diretrizes e Bases) traz que o portador de necessidade especial tem o direito de frequentar a escola regular e o professor deve incluir esse aluno. A lei é maravilhosa, mas na prática você vê professores sem formação para isso e escola que não tem infraestrutura. Esse professor brinca que está fazendo inclusão porque de fato ela não existe. Isso é seriedade? Nós temos a escola ideal que é pensada pelos nossos políticos e a real que eles não conhecem.®MDBO¯®MDNM¯

Diante dessa realidade, a senhora acredita que ainda existe a possibilidade de melhora?
Só vai acontecer mudança a partir do momento que as pessoas começarem a reivindicar e a lutar por aquilo que acreditam. Os profissionais da educação precisam conhecer melhor as políticas educacionais, ter maior conhecimento da relação entre o ideal e o real e se posicionar diante disso. No entanto, existem profissionais da educação que não sabem a sua função e nem conhecem a LDB. Se a pessoa desconhece tudo isso, como ela vai reivindicar?

Como a senhora avalia a educação no Brasil?
Estamos passando por mudanças significativas. Há 30 anos, o grande problema era a exclusão e atualmente é a inclusão. Estamos incluindo vários alunos na escola, mas não sabemos trabalhar com eles. O currículo de formação do professor é medieval e pautado na linha tradicional.®MDBO¯®MDNM¯ O professor também está perdendo a esperança, pois é agredido, não consegue desenvolver projetos e ainda ganha mal.

mockup